Luzes Azuis

Quarta-feira, Junho 25, 2008

"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.

Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.

E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem principio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares in "Não te deixarei morrer, David Crocket"

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

As cenas que eu descubro... aqui ficam excertos de algo que escrevi em 2005:


Quinta-feira, 5.00 da madrugada, Laboratório 12 do pavilhão das novas licenciaturas no Instituto Superior Técnico

Querido diário:

Hoje o dia não foi dia, assim como a noite não foi noite.

E querendo ou não o escuro que sobe e desce em mim nos últimos dois dias devem-se a isto mesmo. O tempo, o maldito tempo que teima e não passar; como as pessoas que andam aqui e ali à minha volta, todas o mesmo, todas iguais. E a todas sorrio e aceno, sem que se mexa um sentimento dentro de mim.

Nestes dias não sou nada... ou quase nada porque ainda tenho volume, ocupo espaço e custo tempo. Tenho um trabalho para entregar e está quase concluido, é só para sexta feira mas resolvi ficar aqui... Estou na faculdade, estou num laboratório e não estou, quase não estou, não estou nada em nada de nada.

"ouvi dizer que o nosso amor acabou, pois eu não tive a noção do seu fim..." - chora o Manel nos phones dos ouvidos.

Sabes, gostava de saber fazer o pino. Gostava de poder sair daqui em pino, descer a escada, ir a casa de banho, fazer chichi, mijar-me todo talvez. Gostava de andar em pino um só dia. Depois podia conhecer montes de joelhos a que nunca dei importância, reparar em pormenores mínimos, espreitar por baixo daquela mini saia que há-de passar por ali e sorrir ao contrário.

Gostava de não ser. Gostava de poder não sentir. Agora não me dá jeito, amanhã logo sinto sim? muito obrigado.

"embora lave o medo que há do fim... a chuva apaga o fogo que há em mim..."

E o tempo que não passa... Só vou dormir as 10 da manha, tenho aula as 8 e depois vou dormir. Ou talvez não, ou talvez sim, logo vejo, amanhã vejo sim? muito obrigado.

A vida podia terminar suavemente, com um suave fade out to black and empty e puff o chocapic que nunca mais se faz.

Atenção, não me olhe assim, isto não é uma mensagem nem estou insano. Isto é o resumo de um cérebro decadente. Um resumo, uma síntese, porque tudo o que escrevo é um ínfimo do que penso.

hahaha

Agora estou a ver a vida a sorrir-me com um ar idiota e eu a fazer-lhe uma careta tipo "o que tu queres sei eu.." hahahah :D E rio-me disto. Isto é o mais baixo que consigo chegar... o que é miserável, devia dar para descer tanto mais... - "o mal é que eu já não sei quem eu souuuu" - devia bater no fundo, devia bater e doer.. e ficar com um galo que à meia noite não me acordasse... - "e dar o que eu nunca dei a ninguém...".

Sabes, nunca na vida estive ébrio mas deve ser assim que se sente. Deve ser assim que os pensamentos se desarticulam, deve ser assim que a cabeça anda a roda por não saber parar, deve ser assim que só se dizem idiotices e fazemos os outros pensar "ok.. este gajo não é normal". Só que aqui não tenho a desculpa do estar com os meus sentidos deturpados por estupefacientes psicotrópicos nenhuns, até porque o único apaziguante de consciência que me afecta é o sono - mais que muito - "paro de andar paro pra te ouvir, paro para ver se é bom pra mim.." - "é fácil amar e ser amado, é só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir..." - "não vai haver um novo amor, tão capaz e tão melhor, para mim será melhor assim"

O Manel... o Manel é que já viveu tudo. Não podia escrever se não tivesse vivido.

Bem.. já passou uma hora desde que comecei a escrever isto, ininterruptamente. Agora apetecia-me desligar-me. Carregas aí no botão? eu carrego... por favor não te dignes a responder a isto, é apenas uma descarga, de um curto-circuito mental que tem por força que acontecer. Depois tento dizer qualquer coisa com pés e cabeça e cotovelos também. :)


- Diario de bordo - continuo sentado - 06.00am.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Se um dia eu morresse como morrem todas as pessoas - seco, sem cor nem sal - morreria sem morrer. Um reflexo da vida.

Existem duas formas básicas de viver: em busca da consciência superior e em busca da inconsciência superior.

Se os primeiros parecem estar no bom caminho, os segundos julgam-se geralmente os mais felizes.

A grande maioria das pessoas busca um estado de dormência intelectual em que não tenham que se chatear nem pensar demasiado. Bebem, fumam, drogam-se e tentam manter-se à tona da sociedade, informados, cultos, inteligentes e senhores da sua vida. Vivem nisto a vida toda e se nada sair muito o estipulado dizem ter uma vida "normal" e feliz. Vivem sem viver.

Um exercício engraçado é ir ao cinema, não para ver o filme, mas para passar todo o filme a ter consciência da tela. As imagens continuam a passar, assim como os sons, mas não as estamos a ver nem a ouvir com atenção porque estamos focados na tela. Vemos aquilo esta a acontecer, mas é apenas uma projecção numa tela. A meio do filme, e tendo esta consciência da tela, olhem para as pessoas em volta. Todas elas vão parecer estar meio a dormir, imersas em algo que nem sequer está lá; é apenas uma tela com algo projectado.

Esta é a melhor analogia que já vi para ilustrar o que se vê quando se se busca a consciência superior. Perante a ilusão da vida do dia-a-dia, a maioria das pessoas parece andar apenas a dormir, num estado tipo zombie em modo automático. Uma bola a bater nas tabelas e seguindo o carreiro, ainda que nesse carreiro criem, façam, se mexam e emocionem. Presos à arrogância e racionalidade, presos aos conceitos e dogmas, presos à ilusão do filme, e à ilusão de si mesmos.

E perante a escolha de ver a tela - por ser real, apesar e ser só uma tela - ou ver o filme, a maioria das pessoas escolhe intencionalmente o filme.

Well... i chose the red pill :)

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

penso nesta noite como uma criança com sardas
as estrelas ruborizando a escuridão de seu rosto

nem sei o que me inebria deste pasmo figurativo
meia dose de loucura incerta, mormente remotamente
e agarro o trilho com a força das unhas que lavram o amanhã
panaceia de novidades encravadas nas unhas
e lamentações em surdina

- Pedro Martins


A Ti, seu Pedro sem tempo nem tamanho, aquele abraço :)

Quinta-feira, Julho 26, 2007

The infinite possibilities each day holds should stagger the mind. The sheer number of experiences I could have is uncountable, breathtaking, and I’m sitting here refreshing my inbox. We live trapped in loops, reliving a few days over and over, and we envision only a handful of paths laid out ahead of us. We see the same things each day, we respond the same way, we think the same thoughts, each day a slight variation on the last, every moment smoothly following the gentle curves of societal norms. We act like if we just get through today, tomorrow our dreams will come back to us.

And no, I don’t have all the answers. I don’t know how to jolt myself into seeing what each moment could become. But I do know one thing: The solution doesn’t involve watering down my every little idea and creative impulse for the sake of some day easing my fit into a mold. It doesn’t involve tempering my life to better fit someone’s expectations. It doesn’t involve constantly holding back for fear of shaking things up.


Amen.

Comic completo aqui: http://xkcd.com/137/

Quarta-feira, Maio 02, 2007



Que bom que é partir.

Sair. Esfumarmo-nos no ar. No isento mundo do não conhecer, do não nos saberem e ninguém nos julgar.
Que bom conhecer e desbravar.

Que bom as serras e o céu, e as águas e os rochedos. Que bom o verde e o azul.

Que boas as pessoas simples que dão de beber ao mundo.

Que bom descobrir paraísos perdidos, aqui tão perto. Que bom sentirmo-nos lá.

Que bons os dias em que me posso encher com a vontade de regressar.

Quinta-feira, Abril 19, 2007

Penso que a maioria das pessoas não são felizes.

Já não há quem espere apenas Amor do amor? Apenas luz, apenas brilho, apenas lágrimas, suor, corpos, olhares, cumplicidade e provocação...? viagens ao fundo do outro e de nós, partilhar... ser tudo e ser num só?

Quero com tanta força crer assim... mas como é possível que o amor eterno exista, se tudo em nós muda? Não controlamos o que sentimos, hoje podemos amar e ser verdadeiros nesse amor, amanhã pode ficar uma paz e carinho e o amor pode diluir-se no viver. Mais que isso... vejo o mundo materializar o amor. Vejo pessoas estarem por conveniência. Porque dá jeito. Porque não há mais ninguém. Porque vai ser um bom pai. Porque é um bom homem... PORRA PÁ!

E a PAIXÃOOO?! E a sede de mais e mais que abre buracos no peito porque nunca, jamais, é saciada? O beber o corpo do outro, o alimentar-se das palavras, das ideias, dos olhos, da lingua dos dedos e dos pés? e na ausência, o suspirar incessantemente, olhar perdido em beijos que vão ser mais tarde, abraços que nunca afastam...?

Se calhar não é no Amor que não tenho fé. É nas pessoas. As pessoas são pouco verdadeiras. Consigo mesmas e com os outros. No entanto há cada vez mais pessoas a "sentir". Há cada vez mais seres de luz, mais paz, mais brilho. Há calor, há amizade, há carinho. E acredito que estes são apenas a fímbria de uma onda que irá mudar o mundo.

Será. Depois de amanhã serei feliz.

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Ode à Insanidade


Levanta-te!
Vá lá, já te disse!
Naquela noite fria
A claridade penetrava por todas as tocas
E todas as toupeiras transpiravam
Uma leve melodia aos céus!
Por onde voando, três peixes pardos se benziam:
"Não tens a chave?"
"Foste tu que a guardaste!!"
"Esta porta é linda..."
"Mais linda que a minha orelha?"
E todos sorriram perante aquela triste e leda madrugada!
"What's your name tiger?"
"Johnny Spider baby!"
E agarrando aquela loira estonteante pelo braço
O ouriço caixeiro sentou-se e disse:
"Isto nunca me tinha acontecido antes.."
A sereia largou um olhar de seca, franziu o nariz
E começou a vestir as escamas.
Desesperado o ouriço pede à pulga que
Lhe coce as costas!

- Agora uma cena totalmente fora do contexto -

Restos de papeis de chocolate espalhados pela mesa,
Mafalda Veiga ao vivo na radio...
Mas que rádio passa um concerto ao vivo no Tivoli às 5.30
Da manhã?!
Lembro-me então que não puxei o autoclismo. E que permiti
Que algumas pingas ficassem na borda da sanita! E então
Imagino o babuino do coveiro a sentar-se e a ficar com a peida
molhada!
Sorrio... A miséria do coveiro deixa-me feliz!
Desço então a rua mas o dono da Tabacaria esta triste e espera
e volta a esperar, respira com a mesma profundidade com que
respirou
No dia em que veio ao mundo.. Ah e como o recorda! Ainda mal
tinha
Saído das vísceras da mãe e já um enfermeiro gorducho comentava
Com a boca cheia de donuts:
"ixx.. este parece que foi cagado!"
E sempre foi humilhado desde aí.
Muitos invernos depois chegou uma primavera
Que numa brisa lhe tentou explicar que
O poeta era um fingidor, mas ele não ouviu
Ensurdecido como uma criança entre as mãos de uma bola,
Que pula e acelera!
Então o rochedo soprou:
"Porque choras rapazinho?"
E o homem do leme disse tremendo:
"Só se vê bem com o coração, quando o sangue não o ofusca!"
E a pedra assustada, tremendo nas suas ténues pernas,
Correu para nunca mais voltar!
Deus quer, o homem sonha, as obras ficam anos presas em
Burocracias antes que nasçam.. condenadas pelos pinguins
A viver ao Deus dará, sentam-se e vêem os lobos bramir:
"Eles comem tudo, ele comem tudo, eles comem tudo e não deixam
nada!"
Eis senão quando, junto ao rio, se ergue um orador:
"OU É O SAL QUE NÃO SALGA, OU A TERRA QUE TEM VINAGRE A MAIS!"
E magicamente um peixe espreitou por debaixo do mar, viu tudo e
todos..
E adormeceu, sufocado porque o mar já não é salgado, porque
Portugal já não chora, Portugal just does not care...
Morra o povo inerte, morra PIM!
Mas aparte disso, temos todos os sonhos do mundo...!

- Fim de cena totalmente fora do contexto -

Desesperado o ouriço implora:
"Vem sentar-te comigo, Lídia!"
Mas a sereia já estava distraída:
"Olá guardador de rebanhos! Quem és? de onde vens? para onde
vais?"
"Eu sou o Bocage e venho do café nicola, e vou contigo para o
quarto
Se isso te der na tola!"
A sereia sorriu: "Nem tudo vale a pena, nem mesmo quando o falo
é grande!"

E no lado oposto do mundo uma pobre ceifeira
Cantava, feliz porque não pensava!
E o ouriço chorava, porque nenhuma ausência é pior
Que uma pulga para nos coçar as costas!
É urgente o amor, para então sofrermos mais!
E depois uma garrafa atirar ao mar com uma
Folha que tem nada mais que
"No principio era o verbo e com verbos fazemos acções
E meia dúzia é sempre mais em conta!"
Então levo a Rosa Branca, passo a mão por um bando de
Pardais a solta que jogava à bola
E sorrio.
O sol põe-se no horizonte, vermelho e imponente,
A mesma brisa beija-me a face.
Desço a rua feliz e o dono da Tabacaria já está contente.
O babuino do coveiro urinou em pé, logo não se sujou,
O ouriço fugiu com a pulga e viveram felizes para sempre,
As toupeiras tomaram banho e não voltaram a cheirar a suor
Os peixes pardos voltaram ao mar
E eu desço a rua cantando:
"Quem me dera saber escrever versos e rimar, para à Lídia dizer
Que ela é a sereia que eu quero amar, amar perdidamente!"

Ah.. e o enfermeiro morreu engasgado nos donuts


- Filipe, 27/12/2002

Quinta-feira, Março 22, 2007


Hão-de chover pedras aí.
Não há fundo sem mofo.
No dia em que caíres e fores, seres serão maiores que o saber; e o que não souberes, o que não quiseres, já por si só, será.
As pedras que foram e que serão sempre mais fortes que a caneta, que a espada e que o espadachim.
Toma esta pedra.
Não sou um mundo, não venho para te esmagar.

- Filipe

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006


fónix fónix fónix fónix fónix fónix fónix!

FINALMENTE!!!

DAVE MATTHEWS BAND vem a Portugal!!!

O concerto é dia 25 de Maio de 2007 e eu já tenho o meu bilhete!

Ganda cena, fónix! :D

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006


"Com 23 anos, já não faço planos, para quê fazer?"
- J.P. Simões


Quando eu tinha 11 anos duvidava seriamente dos adultos. Achava que as crianças não podiam crescer. Os adultos nunca podiam ter sido como eu. Desconfiava que era o centro do mundo e que toda a gente à minha volta representava num teatro circunstancial para mim e só para mim. Uma espécie de "the truman show" privado.
Sim. Era decididamente impossível que o meu pai já tivesse sido, algures, uma criança e que eu não fosse o centro do universo.

Um dia - tinha eu uns 18 anos - adormeci, e quando acordei tinha 23, já tinha uma vida em meio de viver, semi-usada (tê-la-ei comprado em segunda mão?), vários mundos a girar a volta de vários egos e eu perdido no meio deles.

Que fazer agora? Assim do nada tenho que ser responsável, ter capacidade para decidir a minha vida e arcar com as responsabilidades dos meus actos? Tenho que ter cuidado com o espaço dos outros e resguardar o meu espaço? Tenho que ser comedido no que digo e no que faço (terei também que castrar o que penso?).

Porque é que a vida não flui naturalmente pelas pessoas? Porque é que não somos todos bons e correctos? Porque é que temos capacidade para nos magoarmos uns aos outros? Porque é que o amor não é uma ciência exacta? Porque é que de repente tenho mais preocupações que apanhar rãs no ribeiro, jogar SuperNintendo e ver filmes pornográficos às escondidas?

Tenho que atingir uma osmose com o meio envolvente, tenho que ser grande, maduro e crescido para poder ser um adulto improvável para mim e uma criança impossível para algum puto de 12 anos. Tenho que crescer. Mais que crescer, tenho que pendurar-me no cabide e ser aquilo que todos querem de mim. Tenho que meter no bolso de um casaco velho noites e noites sem fazer nada. Poesia e sensibilidade poética. Tenho que guardar no fundo de uma gaveta noites de insana alegria e cumplicidade. Sentir-me algo maior do que os homens, num caixote na cave.

Há outras formas de encher o ego sem ter que o massajar directamente. É como injectar directamente para a veia ou fumar. Fumar também funciona, mas na veia dá mais pica. Pode-se vestir uma gravata e um fato, ser o Sr. Engenheiro, ter um emprego, ter uma casa normal, uma família normal, uma televisão normal...

"but why would you wanna do that, when you got heroin?"

E a minha heroína é viver. É beber poesia, é música, é partilha, é dissertar o mais estúpido dos assuntos com alguém que percebe o valor de o fazer. É dormir o dia inteiro e passar a noite a vegetar. É sair de carro às duas da manhã e ir jogar ping pong para uma cave em Alenquer. É batatas fritas com presunto numa rotunda da margem sul. É ver o amanhecer sentado num pilar da ponte, é andar a porrada com amigos só porque sim. É fazer o que me apetece sem consciência. É ausência de regras, de imposições, de verdades absolutas para me reger. É tocar guitarra e harmónica, é psicologia e filosofia, é dar peidos e rir até não poder fazer mais nada. É pensar e esmiuçar até ao limite da sanidade humana o mais ínfimo sentimento absurdo. É pensar. Pensar demais. É viver e alimentar-me de sentimentos. Meus e dos outros. De sensibilidades, de lágrimas e de risos. De substância da alma humana. É gostar de estar triste. É isto.

Quero viver! Quero ser feliz! Quando estou a dormir sou bué feliz. Quero sentir-me eu. Não me quero perder de mim. Posso adaptar-me ao ser que tenho mas não sou, mas não posso esquecer-me de mim. Ser eu. Tem que continuar a saber a certo cá no fundo. Não quero sucumbir a uma vida quadrada, estática e insalubre. Quero estímulo intelectual, quero ideias que me arrebatem e pessoas que me deslumbrem. Quero trocar olhares cúmplices no meio da multidão. Quero sentir-me parte de um aparte. Quero sentir-me diferente e especial, como já tão bem me senti. Não quero diluir-me, ser mais um entre mil.

Quero que o meu mundo continue a girar em volta de mim. Ser rançosamente egocêntrico em mim e nas minhas pessoas. Quero conseguir estar-me genuinamente a cagar para todas as outras. Quero ter coragem para agir em conformidade com tudo o que penso. Quero ser fiel a mim.


Eu. Sim. Tudo, tudo eu.

Sábado, Novembro 25, 2006


O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

- Álvaro de Campos



Como é que se pode acrescentar algo a isto?

Pensar que já havia uma vida inteira de que se fartar no início do século XX.

Estou cansado. Farto e cansado. As pessoas cansam-me, eu canso-me delas e canso-me de mim. Canso-me de não fazer nada. Como é que se fabrica motivação? Como é que se força entusiasmo? Como é que se inventa alegria de estar e sentir? Como é que se pára de pensar e se começa a viver?

Como é que há pessoas que conseguem passar uma vida inteira sem se deprimir? O mundo todo é uma depressão, como é que isso passa ao lado de tanta gente?

Fui somando uma quantidade infindável de quase-nadas ao longo da vida, não me destaquei em nada. Nunca fui o melhor, nem especial, nem sequer digno de nota. Fiquei sempre "na média".

O que é mais fútil? isto ou um não-isto? Certo é que um mundo de pessoas assim não andaria para a frente. Eu nunca inventaria a electricidade nem a máquina a vapor. Nem 90% das pessoas que têm o dom de lhes chegar o dia-a-diazinho; mas o mundo não pode ser só génios e, mesmo esses, de que lhes valeu a genialidade? morreram como todos os outros. Foram os melhores no que fizeram, e depois findaram. Se não tivessem existido, outros haveria para criar o não-criado, para servir alguém.

Não há propósito. Já não havia há 100 anos atrás, quando o Pessoa retratava um mundo deprimido de ninguém, continua a não haver hoje, e não haverá amanhã.
E a terra não vai parar de girar, não vamos deixar de conquistar o espaço, inventar novas doenças e curas a acompanhar, uns vão vencer, outros falhar e muitos vão continuar cansados, obsoletos, observadores, parasitas, sem motivo nem vontade e sem qualquer contributo de maior para a humanidade. Vão escrever obras nulas, vão criticar e ser criticados. Vagabundos com ambições de filósofos. Lesmas com ilusões de eloquência. Nadas.

E eu fico ali no meio. Não faço mas vou fazendo. Não escrevo mas vou escrevendo. Não crio mas vou criando. Não vivo mas vou vivendo.

No final, vou estar demasiado cansado para morrer.

Quarta-feira, Novembro 22, 2006



Hoje não sei.

Encontro-me num paradoxo existencial. Tento ser correcto, fazer tudo bem, não enganar, não mentir e não magoar ninguém. E se nas duas primeiras tenho sido exímio, no não magoar já falhei miseravelmente. E o problema (isto pegando em mim e simplificando-me a um ponto em que, hipoteticamente, um único problema poderia degenerar na mixórdia que sou) é que, por muito esforço que faça, eu não sou o que penso, sou o que sinto, e o que sinto não é bom, não é bonito e não se adequa ao mundo em que vivemos.

Sou um aglomerado de angustias sem resposta. Sou uma antítese sentimental de quereres
e vontades oscilantes, sou um contorno, uma casca, um vazio por encher.

Claro que tenho montes de momentos grandes e felizes, em que não penso em nada e realmente sorrio, sem dúvida no meu fundo de que estou feliz. Mas estes momentos em que ponho a vida em plano de fundo e paro para pensar são de uma dimensão bem mais megalómana que os momentos bons, que só o são porque me abstenho de pensar.

A chave da felicidade é não pensar. Viver a vida de forma pragmática, para a frente é que é o caminho e, realmente, só coagindo-me a ser e a sentir assim sou feliz. Provavelmente o mundo funciona assim. Há pessoas que seguem calmamente o caminho da existência sem pensarem demasiado nisso, e pessoas que se forçam a não pensar demasiado nas coisas. Quem pensar não pode ser feliz. Vem nas regras do livro da vida, nas letras pequenas que nunca ninguém lê.

E continuo sem saber o que sou, a sentir o que não sei, preso numa racionalidade que não me deixa deixar não saber, não pensar.

Fim de post inconclusivo.

Terça-feira, Novembro 14, 2006





De tempos em tempos acontece algo e volto a ler e a ouvir tudo de Ornatos e fónix pá... não há palavras. Isto é tudo em mim. É amor, dor, mágoa, angustia, vazio de ser, complexidade de sentir, mas também sexo, gozo, demência, pura boémia, é poesia, terra, céu e tanto mais.
Quando o Manel pega nas palavras e as canta, elas ganham a dimensão de um universo inteiro... sinto tanto de tanta coisa... bebo aquela voz vomitada directamente ao mais fundo da alma. Toca-me e despeja-me de mim para mim e fico cheio por dentro, meio absorto por fora e absolutamente sem sentido para quem não ouve o que oiço, nem sente o que sinto...

Quero-os de volta... Não quero pluto, não quero supernada, não quero nuno e nico, nem mesmo bandidos nenhuns. Quero ORNATOS VIOLETA! quero um concerto... nem que seja só um.

Domingo, Março 26, 2006




Dose tripla:

CADERNO AZUL Nº 10
"Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo.
Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não.
Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar.
Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito."




A LEI DE LYNCH
"Petrov monta no cavalo e faz à multidão um discurso em que prediz o que irá passar-se, caso construam um arranha-céus americano no sítio onde fica o jardim público. A multidão ouve e parece que aprova. Petrov anota qualquer coisa no seu caderno. Da multidão sai um homem de mediana estatura e pergunta a Petrov o que é que ele assentou o caderno. Petrov responde que se trata de uma coisa que só a ele diz respeito. O homem de mediana estatura insiste. O tom sobe e rebenta uma discussão. A multidão toma o partido do homem de mediana estatura. Para salvar a vida, Petrov fere o cavalo com as esporas, chega a uma esquina e desaparece. A multidão amotina-se e, à falta de outra vítima, agarra o homem de mediana estatura e arranca-lhe a cabeça. A cabeça arrancada rola na calçada e fica presa numa boca de esgoto. Saciadas as paixões, a multidão dispersa."



SINFONIA Nº2
"Anton Mikhailovich escarrou, fez «ah», voltou a escarrar, fez outra vez «ah» e foi-se embora. Tanto pior para ele! Vou antes falar de Ilia Pavlovich.
Ilia Pavlovich nasceu em 1893, em Constantinopla. Pequeno ainda, levaram-no para S. Petersburgo, onde concluiu estudos na escola alemã da rua Kirochnaia. Depois trabalhou numa loja, depois fez outra coisa qualquer, e quando começou a revolução emigrou para o estrangeiro. Olhem, tanto pior para ele! Vou antes falar de Anna Ignatieva.
Mas falar de Anna Ignatieva não é assim tão simples. Começa por que não sei nada dela, e depois acabo de cair da cadeira e esqueci tudo quanto tinha para contar. Vou antes falar de mim.
Sou alto, não sou nada parvo, visto com elegância e gosto, não bebo, não vou às corridas mas tenho um fraco por mulheres. E as mulheres não fogem de mim. Gostam mesmo que dê passeios com elas. Serafina Izmailovna convidou-me mais do que uma vez para ir a casa dela, e Zinaida Iakolevna também costumava afirmar que tinha muito prazer em ver-me. Com Marina Petrovna é que se passou uma coisa divertida, que desejo contar. Uma coisa banalíssima mas ainda assim divertida. Marina Petrovna ficou completamente careca por minha causa, careca como um ovo. O facto deu-se desta forma: um dia fui a casa de Marina Petrovna, e ela «zás!», completamente careca. Só isto."




- Daniil Harms Posted by Picasa

Quarta-feira, Setembro 28, 2005





Sabes quando nos fechamos por dentro?
Quando os nossos sentimentos nos assustam
e os empurramos para o fundo?
Quando ficamos sem saber como lidar
com os outros, e com nós mesmos?
Quando temos medo de tropeçar, de cair e de sofrer?

Sabes quando escondemos isso do mundo
porque temos medo de mostrar fraquezas,
de abrir brechas por onde nos possam magoar?

Acho que é assim que se sofre mais.
Quando não deixamos que os nossos medos
e as nossas lágrimas caiam nos ombros alheios
e criem laços mais fortes que qualquer sorriso.
O medo, são asas fechadas.
Basta abri-las e voar.





 Posted by Picasa

Quarta-feira, Julho 27, 2005


 Posted by Picasa

Terça-feira, Julho 12, 2005






"(...)
Será que ainda ficas oca, certos dias, por te teres esvaziado de mim?

Tu tão parecida com o vento que rodopia nas almas
para se entalar nas frestas da angustia, na luz da escuridão,
nos passos imóveis que nunca se dá porque seriam fatalmente motores
Tu que me embalas e me arrastas e em dias de sorte me fazes chorar
como se chorar fosse a ultima hipótese de te ter ao meu lado em cada lágrima
como se cada lágrima fosse um barco possível para regressar a ti
para te chamar ao meu corpo como as sirenes dos navios acordam
em estertor em dias de nevoeiros os portos perigosos das paixões
Tu que pouco sabes de ti e que de mim te apartas como se não fosses tu
como se houvesse viagens com retorno, como se fosse possível
terminar e determinar aquilo que é infinito porque não morreu

(...)
será que entendes o enigma que sem saberes sou eu para ti?
Será que alguma vez leste na minha pele toda a evidência
ao ponto de te embriagares de quebrares muros resistências
análises trancas algemas receios talvez inúteis de brisas talvez fecundas?

Tu que te estatelas agora no céu de cada noite deserta
será que algum dia tornarás a ler o céu no chão?
Será que em alguma papelaria escondida na cidade
encontrarei um dia um mapa para te ler sem te sufocar?
Tu que me tropeças cada passo, será que tens ainda em ti
o único pulmão que já me fez respirar?

Vivo apenas uma praia oca. Nem areia tem.
A primeira duna é árida e semelhante à última.
Nada sei de mim. Mas sei quem tu és.
És a única pergunta que não formulei.
Será que ao menos sabes que eu não sei?
"


- Manuel Cintra









Este fim-de-semana foi bom.

Excepto aquele bocadinho em que caminho para aí. Sempre que volto a casa tenho aquele medo-desejo de te ver de te poder sorrir, acenar, de me poder doer...

Excepto aquele almoço sabado com amigos da família em que os meus pais não se cansam de falar de ti e de como éramos bonitos juntos. Não se cansam de me lembrar como sorria quando ainda eras comigo.

Às vezes sim, ainda me sinto muito oco, não por me ter esvaziado de ti, porque nunca esvaziei nem quero esvaziar. O passado não se apaga, guarda-se ali naquele cantinho só dele - no coração - e recorda-se com carinho, com um sorriso. Quando deixar de doer está claro. Primeiro é preciso deixar de estar vazio, e às vezes já estou menos. Bem menos. Mas ainda vejo os filhos que já não vamos ter na cara dos bebés que passam na rua, ou com quem arrisco brincar uma tarde num jardim. Foi assim com essa Carolina que está na foto - que se calhar até se chama Joana, ou Patrícia. Ela estava apenas ali e eu estava apenas aqui, onde inevitavelmente vou ter sempre que o teu carinho, a tua doçura e o teu amor saem daquele cantinho que guardei para eles cá dentro e se espalham por mim, consomem tudo o resto e voltam para o canto deles, deixando-me vazio.

Mas depois há tudo o resto que compensa. Há o meu mano - está tão lindo... é tão mais inteligente que eu, ias adorar vê-lo - há passeios pelo campo, deixando-me perder por estradinhas de terra, parar num monte, só planícies e árvores à volta, o sol a pôr-se laranja-vermelho-dourado no horizonte e eu encostado comigo mesmo à minha sombra. Há suspiros, há contemplação de tanta coisa bela, há tanto para sorrir.

Parece que quando não temos amor tudo perde tanto o sentido. E tentamos e revoltamo-nos e somos mesmo fortes, porque o queremos ser e torcemo-nos e levantamo-nos e vamos contra nós e contra tudo o que nos sabe a certo na alma. E continuamos miseráveis. Enganamo-nos com pequenas vitórias, e subornamos o coração para não nos chatear.

Não funciona. Já sei que não funciona, nem quero mais isso. Mas aos poucos já me sinto mais eu. O vazio já só me invade de quando em quando, já só me sinto perdido às vezes, aos poucos vou conseguindo sorrir mesmo sem estar a ler os teus bilhetinhos. "would you like to have dinner with me?" com bonecos de "a dama e o vagabundo" colados - lembras-te? - ou sem estar a recordar as manhãs que já com tanta força quis repetir... Aquelas em que esperava à tua porta que os teus pais saíssem e depois te ia tirar da cama com um sorriso... tinhas sempre a pele tão suave ao acordar... eu besuntava-a de festinhas e tu sorrias. Sorriamos os dois. E agora temos que sorrir sem isso.

Este fim-de-semana sorri várias vezes. Com o meu mano, com os meus pais e mesmo só comigo. Sorri ao sol, sorri ao perder vários jogos, sorri a uma velhinha que chorava, sorri ao ler o "Não sei nunca por onde" do Manuel Cintra, sorri ao ler o "sorriso aos pés da escada" do Henry Miller (sim este fim de semana li dois livros, pequenitos e bonitos).... E também sorri ao pensar em ti. E esse é o maior sorriso. O mais importante. É aí que me sinto um bocadinho mais "eu". Sinto-me um bocadinho mais forte, com mais força para enfrentar o mundo, que tanto tempo me pareceu tão insalubre. Claro que ainda não estou bem. Claro que ainda custo a adormecer. Claro que ainda te ligo para o telemóvel, invariavelmente desligado, em noites de insónia. Claro que ainda te escrevo o tanto que quero dizer-te e saber-te, só cá por dentro, sem nunca passar para o papel. Claro que ainda passo na tua casa várias vezes e claro que o coração me esmaga de cada vez que o faço.

O problema é o negar o amor. Não te posso dizer adeus, nem com músicas nem com poemas. Não posso deixar de ver-te em tudo o que leio e oiço. Não posso deixar de te amar. Não funciona assim e é bom finalmente perceber isso. Sim. Amo-te. E isso não é mau. É bom. É tão bom assumir isto para mim mesmo, tão libertador. Amo-te mais do que pensaria ser possível. Somos tão tão diferentes, tão "nada-a-ver", tão "a certinha, o rebelde"... tão giros :)

"Ah mas é amor para namorar? ou é só amor-carinho? ou é só pela falta, pela ausência e depois passa de novo?" - diria a minha consciência irritante. Porque eu tenho medo de dizer estas coisas. Tenho medo que as sintas. Que te façam mal. Tenho medo de fazer-te crer em coisas que eu não sei se creio. Por isso, isto não sei. E não tenho que saber. Porque é que tenho que estar a catalogar o amor? É o mesmo de quando te disse que te amava pela primeira vez, é o mesmo de quando te disse pela primeira vez que tinha dúvidas de que o sentia, o mesmo de quando terminámos a primeira vez, o mesmo de quando voltei para ti a chorar dizendo que não te queria perder, o mesmo de quando terminámos a última vez. O mesmo de quando te disse que se calhar o que tínhamos era habituação e não amor. É sempre o mesmo, e não sei para que o quero nem se quero fazer alguma coisa com ele. Sei que está cá.

O amor é para continuar cá. Já não quero que desapareça. É do melhor que tenho, e considero-o tão puro... tão sem-ciume, tão sem possessão, tão sem sentimentos maus e que - como sabes - eu considero tão antagónicos ao amor. Mas quero-te feliz: longe, perto, onde estiveres. Desde que estejas feliz. Sei que estás a fazer por isso e não desistas, mesmo que custe a início, que te magoes, que te rasgues e sofras. De cada vez que caíres ergues-te mais forte. Vais ter todo o amor que mereces e o carinho que precisas. Eu sei que sim. Da minha parte ainda tens tudo o que te disse que iria estar sempre aqui para ti. E ainda te sinto a pessoa mais próxima de mim. Mesmo com estes meses a afastarem-nos, mesmo com tanta distância continuas a ser a pessoa a quem mais me dei, a quem mais me dou e em quem mais cegamente confio.

Não me lembro de passar um dia sem pensar em ti. Nem que seja ao deitar, lembrar-me "este dia até foi bom, nem pensei demasiado nela..."

Sabes... cheguei a sentir desprezo. Um dia em conversa alguém me fez notar algo que eu nunca tinha pensado. A forma como fizeste o que achavas melhor para ti e para te pores bem, como desligaste de mim, como me atiraste contra o chão com um "não quero ser mais tua amiga" seco e decidido. E a forma como eu compreendi, estavas a fazer o melhor para ti, o que era preciso para ficares bem, sem claro te preocupares demasiado comigo.

Nesse dia eu estava mais que mal. Sentia tanto tanto a tua falta, queria tanto ir ter contigo, e não o fazia porque respeitava a tua decisão e fiz tanta ou mais força que tu para que corresse da melhor forma. E alguém me fez notar "tudo bem, eu também compreendo que ela tenha feito o que achou melhor para ela, o que era preciso. Mas tu nunca farias isso. Se tu pensasses como ela, agora ias atrás do impulso e nem pensarias que isso depois a poderia magoar e ser mais difícil para ela. E nem teria que ser um impulso, porque tanta gente te diz para ires ter com ela..."

E era verdade... e naquele momento, pela primeira vez na minha vida, senti algo parecido com raiva ou desilusão associado a ti. :( Mas eu sou estúpido. Porque há tanta coisa que tu nunca me farias e que eu fiz, não é? E que te magoou. E há tanta sinceridade que ainda hoje eu mantenho na minha vida e que só magoa os outros. E eu continuo a achar que isso é certo e continuo a reger-me pelos mesmos princípios. Tu fizeste o que era certo.

Sei que para mim seria muito mais fácil sendo nós amigos. Sei que para ti seria muito mais difícil.

Eu sinto-me começar agora a escalada. Sinto que só agora estou a começar a ter um ínfimo da determinação que tu tiveste quando foste dura, contigo e comigo, como tinhas que ser.

Claro que ainda penso muito em Ti, claro que ainda espero que me telefones, que me mandes um mail, que me mandes uma mensagem a convidar-me para ir passear e conversar um bocadinho...
Mas este fim-de-semana consegui só ser vazio metade do tempo. Consegui sorrir.

Este fim-de-semana foi bom.




 Posted by Picasa

Quinta-feira, Julho 07, 2005






Um coração cheio não precisa de ir a lado nenhum. Uma alma em dois corpos não precisa de se mover para ser uma só. O que já se tem não se procura.

Uma concha na areia não deixa de pertencer ao mar.

Hoje permito-nos sonhar, amanha permito-nos ser.



 Posted by Picasa

Terça-feira, Julho 05, 2005




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

- José Luís Peixoto - A CRIANÇA EM RUÍNAS


Mais uma noite de doce demência poética...

Ao Roger aquele abraço amigo :)




 Posted by Picasa

Sábado, Julho 02, 2005






Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos


- Ruy Belo






Passou tempo e mais tempo.
Como estás? és Feliz?
Espero com tanta tanta força que sim.
"o tempo cura tudo" dizia o outro de boca cheia.
Talvez, quando se tem a tua força de vontade e determinação.
Talvez seja apenas egoísmo, talvez seja apenas estupidez, não sei.
Oh imaginar-te adormecer com um sorriso nos lábios e escorregares no acordar, espreguiçando-te luminosa...
Sorrir por dentro, como sempre mereceste.
Espero com tanta tanta força que sim.
Só assim vale a pena, mesmo que a alma seja rasca e exígua.
Muito mais tempo há-de passar.

Um abraço tão apertado quanto tudo o que sinto por Ti.

Saudades...*



 Posted by Picasa

Quarta-feira, Junho 29, 2005








Poesia Contemporânea - Dose Dupla



"Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite-
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos de insectos,
e o canto do vento nos ciprestes, e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de ter perdido - não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo-
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite,
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi-
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrecer nesta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema."


- Maria do Rosário Pedreira







***







"Infinito o silêncio

2.

Fez-se Outono em Janeiro, Pazinho,
e, uma a uma, as gotas dela caem como folhas.
Agora o tempo e o tormento estão de braço dado
e eu que nunca paro dei comigo mais parado
do que ela que ao parar só luta
contra a corrente que toda a vida a inundou
de vida e contra-vida e de lutar
e de não querer que a morte fosse morte
nem houvesse despedida dos que partem
e se calhar ficam, perto de nós,
a descansar.

Veio uma rajada mais fria, Pazinho,
e pôs-lhe os cabelos loiros
no sítio mais precioso da lembrança.
Agora caminhar vai ser difícil.
Tu vais sentir-te mais pesada,
e passo a passo e devagar e quase sem querer
vais reviver toda uma vida iluminada
por essa luz estranha essa alquimia particular
que se afasta agora, segundo a segundo
como quem previne que vem aí a escuridão.

E sei que te vai doer
como já a mim me dói tudo isto
esta luta absurda contra a própria luta
este correr parado contra o tempo
esta angústia de a ver assim deitada
e nada poder senão sorrir, com tristeza,
e mesmo assim para dentro,
que cá fora tudo flui num mar de lágrimas
e numa certeza grande enraizada.

Vai fazer-se outono outra vez,
um dia, Pazinho, e não haverá folhas
tal como agora.
Não se ouvirá cair um galho, nem cantar
gente ou pássaros ou céu ou chuva,
nada disto que nos confunde e atrapalha
quando no fundo o que queríamos
era apenas sofrer em paz.

Nem um dedo se moverá. Nem tu,
nem eu, nem a implacável corrente
dos minutos.

Aí,
que mais poderei fazer além de dar-te a mão
e partilhar contigo a cor da morte
a caminho do dia, a caminho do canto
pois nada do que parte se recusa a cá ficar
e toda ela é nossa, e nós dela somos,
e isso, Pazinho, ninguém o pode evitar."


- Manuel Cintra







Estava eu ali no mictório a defecar, a terminar de ler um livro de poesia portuguesa e estes dois fizeram-me particular comichão por dentro do peito.

Incrível como juntando palavras que toda a gente usa, fazendo frases como toda a gente faz, se conseguem escrever coisas assim. Arrebatador... directo ao meu mais fundo e de volta para cima que dos fracos não reza a história. :)

A estes dois grandes poetas dos nossos dias, um grande bem-haja, e venham mais, bem arranjadinhos num pratinho para mesa que já nunca está aqui ao fundo.




 Posted by Hello

Quinta-feira, Junho 23, 2005



~

Lembrança De Perder Tudo - I


o teu rosto transformou-se na noite interminável
que atravessa cada tarde, cada tarde, cada tarde
interminável.

o rio de fumo que levava o teu nome para as
estrelas desapareceu dentro de dentro de dentro
da minha tristeza.

e o teu rosto era tudo o que tinha. e o teu nome era
tudo o que tinha. tu eras tudo. tudo, e tudo é agora
mais do que tudo.



Lembrança De Perder Tudo - II


não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.

não penso para onde foste porque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio
dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
sinto o que sentiste.

fico acordado de noite, com a esperança secreta de
que possas regressar.



Lembrança De Perder Tudo - III


não me arrependo das horas que perdi a esperar-te
quando ainda havia a esperança. a esperança que
havia ainda quando, a esperar-te, perdi horas de que
não me arrependo.

um instante na memória de chegares é mais valioso
do que jardins. do que montanhas. do que anos de
tempo.

arrependo-me de ficar ao sol, de sorrir, de esquecer
que devagar passam os dias. os dias passam devagar,
esquecendo-se de sorrir ao sol e de ficar onde me
arrependo.


- José Luís Peixoto
 Posted by Hello

Terça-feira, Junho 21, 2005






As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement,
where fields of harvest wheat.

And down by the brimming river
I heard a lover sing:
Under an arch of the railway:
"Love has no ending.

"I ll love you, dear. I ll love you
Till China and Africa meet,
and the river jumps over the mountain
And the salmon sing in the street,

I'll love you till the ocean
is folded and hung up to dry
And the seven stars go squawking
Like geese about the sky.

"The years shall run like rabbits,
For in my arms I hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world"

But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.


"In the burrows of the Nightmare
Where justice naked is,
Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.

"In headaches and in worry
Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or To-day.


"Into many a green valley
Drifts the appaling snow:
Time breaks the threaded dances
and the diver[s brillant bow.

O plunge your hands in water,
Plunge them in up to the wrist,
Stare, stare in the basin
And wonder what you've missed.

"The glacier knocks in the cupboard,
The desert sighs in the bed,
And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.

"Where the beggars raffle the banknotes
And the Giant in enchanting to Jack,
And the Lily-white Boy is a Roarer,
And Jill goes down on her back.

"O look, look in the mirror,
O look in your distress,
Life remains a blessing
Although you cannot bless.

"O stand, stand at the window,
As the tears scald and start,
You shall love your crooked neighbour
With your crooked heart."

It was late, late in the evening
THe lovers they were gone,
The clocks had ceased their chiming,
And the deep river ran on.



- W. H. Auden





Hoje revi o "Antes de amanhecer" e é daqueles filmes que me fazem largar impropérios de admiração. Admiração pela espontaneidade, pelas expressões faciais, os sorrisos, as indignações, o que diz, o que sou quando o vejo e oiço, por tudo o que me passa e me revolve e se sente cá dentro.

Hoje é só isto. Há palavras que nos beijam, mas hoje só há silêncios...




 Posted by Hello

Segunda-feira, Junho 20, 2005








"In Memorian


Esses mortos difíceis
Que não acabam de morrer
Dentro de nós; o sorriso
De fotografia,
A carícia suspensa, as folhas
Dos estios persistindo
Na poeira; difíceis;
O suor dos cavalos, o sorriso,
Como já disse, nos lábios,
Nas folhas dos livros;
Não acabam de morrer;
Tão difíceis, os amigos."



- Eugénio de Andrade




É estranho dizer adeus a este homem - a ele que dizia "Adeus" como ninguém - visto que a sua morte lhe vai finalmente trazer o reconhecimento que já há muito merecia.

E os pseudos vão ler, e vão dizer - de óculos de massa na cara ou cachimbo no canto da boca, de acordo com a faixa etária - "oh sim genial, brutal, colossal", e eu vou ouvi-los, e eu vou sorrir, dar-lhe uma palmadinha nas costas - ao Eugénio, claro - naquela cumplicidade de quem já o descobriu há alguns anos, e beber mais palavras.

Isto é então um adeus em jeito de olá, com uma lágrima a lamber o sorriso.



 Posted by Hello



Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.


- Pedro Abrunhosa, Beijo

Para ouvir, para sentir.

 Posted by Hello


(clicar na imagem pa ver maior) 



Às vezes só me apetece fugir...

Posted by Hello

Sábado, Junho 11, 2005


"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aceitar as tuas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair no meio do vão. Depois de um tempo aprendes que o sol queima se ficar exposto muito tempo. E aprendes que não importa o quanto te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam... e aceitas que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai magoar-te e tu tens de perdoá-la por isso!

Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que Tu podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás pelo resto da vida. Aprendes que as verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distancia. Aprendes que o que importa não é o que tens na vida, mas o que TU és na vida! E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não tens que mudar de amigos se compreenderes que os amigos mudam, percebes que o teu amigo e TU podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobres que as pessoas com que mais te importas na vida são tomadas de ti muito depressa, por isso devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pois pode ser a ultima vez que a vemos. Aprendes que as circunstancias e os ambientes têm influência sobre nós próprios. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que tu mesmo podes ser. Descobres que levas muito tempo a tornares-te na pessoa que queres e que o tempo é curto. Aprendes que não importa onde já chegaste, mas onde vais, mas se tu controlas os teus actos ou eles te controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprendes que heróis são aqueles que sempre fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te calque quando cais é umas das poucas que te ajudam a levantar.

Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e que aprendeste com elas do que com quantos aniversários celebraste. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são tolices, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar, mas isso não te dá o direito de seres cruel!

Descobres que só porque alguém não te ama da maneira que queres que te ame, não significa que essa pessoa não te ame, pois existem pessoas que nos amam, mas não sabem como demonstrar isso. Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém... algumas vezes tens de aprender a perdoar-te a ti mesmo! Aprendes com a mesma severidade com que julgas, serás em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o concertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores.

E aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte! E que podes ir muito mais longe depois de pensares que não podes mais... e que realmente a nossa vida tem valor e que tu tens valor diante da vida! As nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."


- William Shakespeare Posted by Hello

Sexta-feira, Maio 20, 2005




Asas




Nós nascemos para ter asas, meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como se gastam tostões.

Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.

Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas, de novo voltam a ser.

Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.



José Fanha, 1985. Cartas de Marear.
 Posted by Hello

Segunda-feira, Maio 02, 2005





"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis."

Foi como entrar
Foi como arder
Para ti nem foi viver
Foi mudar o mundo
Sem pensar em mim
Mas o tempo até passou
E és o que ele me ensinou
Uma chaga pra lembrar que há um fim

You're tearing me apart
Crushing me inside
You used to lift me up
Now you get me down
If I
Was to walk away
From you my love
Could I laugh again?

Dá notícias do fundo
Como passam teus dias
Diz se a razão nos chega para viver
Se amor nos serve,
Amor não dá de comer
Fico melhor assim
Em todo o caso vai pensando em mim

Eu vou estar sempre aqui
Nada vai mudar
Sinto-te arder no meu fundo

"Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis."

You're my sweetheart
Goodbye
You're my sweetest
Goodbye
I know i'm gonna look
So so so so bad
But there's no easier way
For me to have to walk away
But i don't wanna hear this no more
And i don't wanna feel this no more
And i don't wanna see this no more
And i don't wanna experience this no more
Cause i know i 've got to say
I know i've got to say
Goodbye

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time

"O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."



- Eugénio de Andrade, Manel Cruz, Archive, Jorge Palma e Damien Rice

Num adeus lido, cantado e sentido...*


Para ouvir, para sentir: Archive - Goodbye

 Posted by Hello

Domingo, Maio 01, 2005


EU


A minha descoberta em nada me deslumbra. Olho-me e não me gosto. Não me gosto, por procurar a perfeição e encontrar em mim defeitos. Muitas vezes fiz esta reflexão: de olhar-me no espelho da minha alma, de me sentir como eu sou, mas sempre me desiludo.
Por vezes encontrar-me é entrar no poço mais profundo que a Imaginação alguma vez concebeu. Mergulho na minha imensidão infinitamente pequena, reduzo-me ao nada que sou, analiso-me e encontro manchas brancas do meu ser.
É tão difícil a minha existência! Mas, mais difícil ainda é a sua análise, livre de subjectividade, se for feita por mim. Mas, se eu não fizer, outros certamente a farão frequentemente. Essas análises são irrelevantes para o meu ser, por nelas encontrar a subjectividade de quem as fez, da circunstância em que as fez, da altura em que as fez, até daquilo que quem as fez de mim conhece! Nada é objectivo!
Aquilo que eu busco incessantemente é o meu preenchimento total como pessoa. Eu sou um Infinito, embora me sinta de um tamanho minúsculo em locais que me sejam novos, com pessoas novas ou em situações novas.
Faço de mim esfregona dos meus sentimentos, absorvo-os até à última gota e aí está: uma bomba-relógio cheia de sentimentalismo, emoções e reacções, andante. Não tenho controlo sobre mim; não consigo controlar as minhas acções em imensas situações. A inconstância é uma constante na minha vida.
Quero-me conhecer, mas nunca consigo atingir a minha totalidade; quando me revejo, esqueço-me de mim há momentos atrás, confundo o presente com o ausente, o futuro com o passado: tudo isto em mim é real.
Perco-me no fio do meu pensamento, que quanto mais teço o meu tecido, maior se torna o meu novelo. Encontro-me, organizo-me, analiso-me, e no final, descubro-me inexploradamente virgem. Quando penso que já me conheço, comprovo-me (quer que seja por acções ou apenas por pensamento) que me desconheço, que o conhecimento que de mim possuía afinal era relativo e pequeno, e volto ao ponto de partida.

Sou um ser complicado por Natureza e complico-me mais quando me tento compreender. Vou à essência do problema mas, afinal, descubro que essa essência não passa de algo banal. Aí, banalizo-me, sinto-me vulgar e não é isso que eu quero ser.
Quero sempre mais; quero reconhecimento, quero amizade, quero carinho, quero amor e quero tudo isso pelo que sou; e não pelo que os outros julgam que sou. No entanto, jogo comigo o jogo da vida e encarno outras personagens para que gostem de mim. Mas já me deixei disso; não há muito, mas já me deixei disso. Quero ser EU, perante mim e perante os outros: quem gostar, gosta e quem não gostar, não gosta. Mas eu não aceito que não gostem de mim e, ou entro em depressão por tal acontecer, ou volto a entrar no jogo de ser aquilo que querem que eu seja.
Mas eu preciso de tempo. Tempo para me recompor, tempo para me estudar, para me conhecer e reconhecer, tempo para amar e para receber amor, tempo para existir e para aqueles que eu amo e não me deixar de sentir EU.
  No entanto, sou muito dependente dos outros. Dependo dos outros para viver, para andar, para sorrir e rir, para estudar, para gostar, para amar.. Necessito da constante atenção dos outros e não gosto de chamar a atenção; quero pessoas à minha volta e não gosto de multidões; quero quem eu amo à minha volta e não consigo demonstrar o meu amor sem me sentir idiota, invulgar, extraterrestre... como é que alguém pode viver constantemente nesta dualidade de circunstâncias opostas, de sentimentos opostos... Sinto-me a estontecer de tanta confusão. É difícil “ser” neste mundo. É difícil assumir-se neste mundo.
Quero-me libertar de todas as convenções, ser livre de todas as prisões, atingir a liberdade ao máximo. Quero livrar-me desta vida tão terrena a que chamo normal e quero chegar a um ponto em que nada mais me interesse: apenas o Amor. Sem o amor, acho que nada me prenderia a este mundo. Nada mesmo... Nada.
  Tantas vezes imaginei deixar tudo isto... mas sempre me vinha à ideia o amor. Aqueles que eu amo, deixar tudo para trás, os que me amam tristes para trás, os que me amam tristes por me ver partir, sem nada poderem fazer como enfrentar tudo isto? Como viver sem tudo isto? Por isso, creio que a minha essência, o meu ser apenas se resume ao amor. Quer deixar-se amar e amar profundamente.
Excesso de romantismo? Não sei... só sei que isto é tudo o que sei. É o resumo da minha vivência, da minha existência, daquilo a que aspiro... por isso, escuso de me esforçar a me tentar entender, encontrar, compreender, pois eu resumo-me deste modo. E creio que qualquer um de nós assim se resume. E é estranho, pois nenhum de nós assim se assume... E cada um de nós é uma história de amor.
 

Autor Desconhecido Posted by Hello

Quinta-feira, Abril 28, 2005




deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

(...)

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


- Al Berto Posted by Hello

Terça-feira, Abril 19, 2005

key


"De chave em punho corro para a porta que te fecha. Esbarro numa mesa, a sala estava às escuras e eu sou daltónico, caio no chão e perco a chave - Bolas!! Sem lentes vejo tanto como um gato à noite...- encontro a dita e sigo em direcção à luz que vem do teu quarto sem paredes. A chave não entra - Caramba... mas será que eu me enganei a trazer a chave e trouxe a da minha porta? - olho à volta, ninguém olha para mim, o sol não deixa. Dou um passo para o lado e entro no teu quarto, dou-te a chave que trago."


- César Carrilho in Histórias da pila que mudou o mundo - Fados

Segunda-feira, Abril 04, 2005


Sentimentos leva-os o tempo... ou não. 

Nova paixão efémera: Fotografia.

Podem ver as cenas que vou tirando:

http://sploft.deviantart.com
http://www.olhares.com/sploft


hasta

Segunda-feira, Março 21, 2005

"E no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte - embora seja sempre absurdo morrer.
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."


Al Berto - Lunário

Segunda-feira, Março 07, 2005

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


- Sophia de Mello Breyner Andresen





Depois de um "Frágil como o mundo" na 2.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

O Amor





É vento que passa e mal se sente...

Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005





Num jardim de céu perdido
A solidão entornou-se no meu bolso.
Deixei-a ali, e fui lavar as calças.




:)

Domingo, Janeiro 23, 2005

Gosto de pessoas com sardas.. têm muita pinta!




hasta

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

Vieste de mansinho, sem avisar
Entraste sem bater?
Ou fui eu que saí sem pensar?
Não sei, mas vieste e ficámos
Talvez num jardim entre o meio de nós
Talvez em mim, um pouco em ti...

Vieste e ficaste.
Passeámos e dançámos,
Rimos e chorámos,
Trocámos carinhos e sentimentos
Até as palavras nos fecharem
E ficarmos assim na incerteza
Do talvez amar.

Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

Se alguma vez te parecer
ouvir coisas sem sentido
não ligues, sou eu a dizer
que quero ficar contigo
e apenas obedeço
com as artes que conheço
ao princípio activo
que rege desde o começo
e mantém o mundo vivo

Se alguma vez me vires fazer
figuras teatrais
dignas dum palhaço pobre
sou eu a dançar a mais nobre
das danças nupciais
vê minhas plumas cardeais
em todo o seu esplendor
sou eu, sou eu, nem mais
a suplicar o teu amor

É a dança mais pungente
mão atrás e outra à frente
valsa de um homem carente
mão atrás e outra à frente
valsa de um homem carente


- Jorge Palma

Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

Primeiro Encontro Ideal:

Ir na rua e pisar uma poia.
Vir uma rapariga e pisar também
E ficarmos a olhar um para o outro com um sorriso estúpido e aquela cara de "temos tanto em comum..." :)



Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

Um toque no real


Saio de casa, dou um pontapé numa pedra que sem culpa nem rumo se deixa rolar pela calçada, levanto os olhos ao dia que se deixa amanhecer suavemente por entre os edifícios velhos e sorrio. Que paradoxo delicioso.

Ando dois quarteirões, atravesso a rua e, sem notar as crianças que brincam ao meu lado, estagno junto ao pequenito jardim que todos os dias me saúda com um bom dia cheio de orvalho.
É ali que te vejo. Todos os dias te vejo. Estás sentada, cabelos negros e escorridos a repousar em cima dos ombros, duas azeitonas a fazer de olhos e dois pedaços de vermelho carnudo a fingirem-se lábios.

Hoje, como todos os dias, como todos os momentos, como todas as sensações, hoje é como sempre. Olho-te, flutuo-te e o jardim dissolve-se nas casas, e as casas numa tela desfocada, e do céu chovem panos negros que esquecem tudo excepto o tu e o eu e o nós que tem por força que acontecer.

Agora já não há nada. Já não estás a ler um livro, por baixo de ti já não há um banco, nem o teu cabelo se salpica dos pedacitos de flor que pingam das árvores. Mas tu não sabes isso e então continuas na tua posição de sentada - suspensa no ar - com as mãos viradas para cima e a olhares atentamente o teu colo. O desejo... o infinito desejo de te tocar. Ajoelho-me a teu lado. Claro que não me vês e continuas a ler o livro que não existe sentada num banco que já não é.

Como és bonita... o negro dos cabelos a pintar o branco da face, o olhar imenso que deixas deslizar pelo livro que não estás a ler, o nariz ligeiramente arrebitado, os lábios que continuas a humedecer com esse pedaço de morango a que chamas língua, a forma como pendes a cabeça para a esquerda, como um sino empenado, o traço do teu queixo à orelha, o pescoço limpo e suave e incrivelmente beijável... oh pudesse eu atravessar-te com o beijar; deslizar a minha mão da tua testa ao teu ombro, segurar-te com força e fazer-nos voar...

Noto-me, como hoje, como ontem e como sempre, com um sorriso estúpido de deleite, parado à boca do jardim, com crianças a brincar à minha volta. Uma delas chega perto de mim, dá-me um pontapé e eu, sem culpa nem rumo, deixo-me rolar pela calçada.


Sábado, Dezembro 11, 2004

"Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito..."

- António Lobo Antunes








Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substãncia da alma. Tudo em mim é tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende."

- Bernardo Soares - Fernando Pessoa - "O Livro do Desassossego"

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

Este post não faz sentido nenhum.

Eu também não.


Quarta-feira, Outubro 27, 2004





Amas? Sofres?

Levantamos os pés do chão e nem reparamos que não sabemos voar.

Foi assim naquela tarde em que saí mais uma vez de uma esquina qualquer em que passo quase sempre, quando o aleatório não converge nem diverge nem é apenas mais nada.

Sentamo-nos à mesa, metemos o guardanapo no colo, e olhamos estarrecidos para aquela carne toda que há que comer.

Às vezes temos mais ego que barriga.



Filipe

Sábado, Setembro 18, 2004

Esta noite (Sabado, 18/9/2004), podem ver o Nuno Prata (ex-ornato) actuar em cascais, no parque de palmela pelas 21h! à borla! :)

Parece que o CD de pluto também está para sair dia 18 de Outubro, e tem o título de "Bom Dia", o alinhamento é o que se segue:

01. Entre Nós
02. Sexo Mono
03. Seguem-me à Luz
04. O 2 Vem Sempre Depois
05. A Vida dos Outros
06. Convite
07. Prisão
08. Lição de Adição
09. Líderes & filhos Lda
10. Só Mais um Começo
11. Bem Vindo a Ti
12. Algo Teu


Podem ouvir algumas destas musicas aqui e para notícias e novidades sobre Pluto podem consultar este site.



hasta

Segunda-feira, Agosto 30, 2004

Porcupine Tree . Russia On Ice



You think I deserve this
You said I was stupid
All my thoughts are like coal
But Russia on ice is burning a hole

Can't stop myself drinking
Can't stop being me
If I call will you come and will you save me ?

I see the whole thing come down
I blow it to the ground
Well what the hell did you say ?
You said you hate me this way
It's just a matter of time

A drop in the ocean
A significant motion
Nothing melts in this cold
But Russia on ice is burning a hole



Segunda-feira, Agosto 16, 2004

Reencontro


O tempo passa sem que ninguém lhe ladre.

Ainda ontem éramos mas, distraímo-nos, desviámos o olhar e, num segundo, nem reparámos que o comboio da vida passou sem parar na estação.
Quando voltamos a confundir-nos no salmodiar das palavras, já perdidos entre o gentio que se acumula em magotes, atiras-me um sorriso afável e amistoso. Eu retribuo, timidamente, e harmonizo-me contigo, assim em tons de azul suave.

Não, o tempo não passou, nem o espaço se expandiu.
Os Amigos são assim, distantes mas presentes, como
uma estrela no céu...


Filipe

Sexta-feira, Junho 18, 2004

Mais um som que ficou perdido no tempo...


Devagar
se o vento não mudar
vou dar até sentir
que há uma razão para crer
que é bem melhor existir
não sei
não vejo luz em mim
tão pouco em mais alguém
só quis tocar o céu
não quero mal a ninguém
eu sei
diz-te a canção do medo
vê se um dia o tempo nos traz
mas perde a noção do tempo
quando eu amo é sempre devagar

Manel Cruz




Quinta-feira, Junho 10, 2004

"Tento ter a força para levar o que é meu
Sei que às vezes vai também um pouco de nós
Devo concordar que às vezes falta-nos a razão
Mas nego que há razões para nos sentirmos tão sós
Vem fazer de conta eu acredito em ti
Estar contigo é estar com o que julgas melhor
Nunca vamos ter o amor a rir para nós
Quando queremos nós ter um sorriso maior"

- Manel Cruz, no refrão da música "Casa" dos Da Weasel


E os ornatos que nunca mais voltam.... :\

Quarta-feira, Maio 26, 2004

Eu metia o Freud no bolso das moedas.


Sábado, Maio 01, 2004

Boas!

Novo projecto:

Criar uma página decente acerca dos Ornatos Violeta, e notícias acerca das respectivas bandas dos mesmos na actualidade.

A página tem por objectivo servir de fonte geral de material de ornatos (Acordes, musicas raras, letras, curiosidades, entrevistas, fotos, etc etc).

Se quiserem ver o "prototipo" que já tenho modelado, passem por http://pwp.netcabo.pt/ornatos e deixem criticas ou sugestões no guestbook.

Se tiverem material, fotos, musicas rarissimas gravadas de um qualquer sitio que possam arranjar, enviem mail para o contacto que está no fundo da página.


Obrigado.

Domingo, Abril 25, 2004

AINDA HÁ ESPERANÇA!

Pois é, vêm aí os PLUTO!

"Os Pluto são um colectivo do Porto, constituído por Manel Cruz, ex-vocalista dos já extintos Ornatos Violeta que agora desempenha a mesma função (juntamente com a de guitarrista), Peixe na guitarra (também ele antigo guitarrista dos Ornatos), Eduardo Silva (baixista da banda de jazz Dep) e Ruca (baterista dos Insert Coin).

Prestes a lançar o álbum de estreia pela Universal Music, a sonoridade dos Pluto aproxima-se da praticada pelos Ornatos Violeta, uma vez que a base mantém-se: pop-rock cantado em português, com letras da autoria de Manel Cruz. "

Vão actuar no dia 11, no superbock, super rock.... eu já não vou dormir bem até lá!

E venham o nuno e nico também, que ainda não os ouvi!

ORNATOS!!!!!!!



hasta

Quarta-feira, Abril 21, 2004

E é assim...
Chegamos erodidos ao ponto de inflexão da alma com o ser e do raciocínio com o sentir e perdemo-nos.
É assim, mas é cada vez mais difícil, é tanta coisa e tanto nada e tanto tudo...
Crescer por fora é que é fácil, basta sobreviver.

Terça-feira, Abril 13, 2004

Nada.
Não me apetece sair.
Estou mole, tenho sono, mas não me apetece dormir.
A luz fere-me os olhos e a mais leve melodia magoa-me os ouvidos.
Não quero...
Não me apetecem pessoas.
Não me apetece ninguém.



Quinta-feira, Março 11, 2004



"Avô Cavernoso" por alguém que infelizmente desconheço.



Quarta-feira, Março 10, 2004

Eu penso em ti logo ao nascer d'aurora
E quando o dia vai chegando ao fim
Nunca me esqueces e dormindo embora
Sonho a ventura de te amar assim

Antes de ver-te flôr do céu caída
Nem me recordo como então vivi
Nem já me atrevo a suportar a vida
Vivendo um dia sem pensar em ti

Ò rosa branca delicada e pura
Que ideal brancura que mimosa côr
Lembras um astro que do céu tombasse
E por mim poisasse na roseira em flôr

Se o teu olhar iluminado e casto
Poisa em meus olhos reflectindo o céu
Quanto mais fujo quanto mais me afasto
Mais perto vejo o teu olhar do meu

Ò rosa branca luminosa e viva
Linda rosa esquíva de um amor fatal
Só podem anjos fabricar sozinhos
Com montões de arminhos uma rosa igual

Quando esta vida se apagar serena
Ao recordar-me quanto amei em vão
Ò desdenhosa o que me faz mais pena
É ir pensando que te esqueço então

Ò rosa branca meu amor primeiro
Tu não tens canteiro tu não tens jardim
Porque me chamas porque não respondes
E porque te escondes a chamar por mim

Mas sob a campa meu amor não finda
Verás senhora se eu ouvir teus ais
Abrir os olhos para ver-te ainda
Morrer de novo se te não vir mais

Ò rosa branca porque me chamaste
Para que roubaste toda a fé que eu tinha
Serena e fria como a luz da lua
Que brancura a tua que desgraça a minha


- João de Vasconcelos e Sá músicado por António Pinto Basto

Quarta-feira, Janeiro 28, 2004

Vincent Maloy is 7 years old, he's always polite and does what he is told. For a boy his age he's considered nice, but he wants to be just like Vincent Price. He doesn't mind living with his sister dog and cats, though he'd rather share a home with spiders and bats. There he could reflect on the horrors he's invented, and wonder dark hallways alone and tormented. Vincent is nice when his aunt comes to see him, but imagines dipping her in wax for his wax museum. He likes to experiment on his dog abercrombie, in the hopes of creating a horrible zombie, so he and his horrible zombie dog could go searching for victims in the London fog. His thoughts arent only of goulish crime, he likes to paint and read some of the time. While other kids read books like Go Jane Go, Vincent's favorite author is Edgar Allen Poe.

One night while reading a gruesome tale, he read a passage that made him turn pale. It was such horrible news he could not survive, for his beautiful wife had been buried alive. He dug out her grave to make sure she was dead, unaware that her grave was his mothers flower bed. His mother sent Vincent off to his room, he knew he had been banish to the tower of doom. Where he was sentenced to spend the rest of his life, alone with a portrait of his beautiful wife. While alone and insane and incased in his doom, Vincents mother burst suddenly into the room. She said if you want to you can go out and play, it's sunny outside and a beautiful day. Vincent tried to talk but he just couldn't speak. The years of isolation had made him quite weak. So he took out some paper and scrawled with a pen..."I am possesed by this house and can never leave it again." His mother said "You are not possesed and you are not almost dead, these games that you play are all in your head." "You're not Vincent Price, you're Vincent Maloy, you are not tormented or insane, you are just a young boy. You are 7 years old and you are my son." "I want you to get outside and have some real fun." Her anger now spent she walked out through the hall, and while Vincent backed slowly against the wall. The room started to sway, to shiver and creak, his heart of insanity had reached its peak. He saw Abercrombie his zombie slave, and heard his wife call from beyond the grave. She spoke from her coffin, and made goulish demands. While through creaking walls reached skeleton hands, every horror in his life and those that crept through his dreams, swept mad laughter to terrified screams. To escape the madness he reached for the door but fell limp and lifeless down on the floor. His voice was soft and very slow as he quoted the Raven From Edgar Allan Poe. "and my soul from out that shadow that lies floating on the floor shall be lifted never more."


Vincent, by Tim Burton



Quarta-feira, Janeiro 14, 2004

Mulholland Drive
"Mulholand Drive", primeiro estranham-te,
depois ninguem pode passar sem ti! Um misterio
que vale a pena descobrir.


Se fosses um filme, que filme serias?
brought to you by Quizilla



Acho que no meu acertou em cheio. Eu sou o mulholland drive, e tu?



hasta

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

Recantos de Uma Asa Perdida

Tinha tempo e tinha espaço, mas preferia o vazio.
Ou não preferia, mas dentro dela tudo se coadunava na ausência de ser.
Correndo, ou não, podia alcançar a vida, aquilo a que os comuns
chamam de normalidade, mas isso nunca lhe limparia as lágrimas da face.
Da face não que lá já nada chorava há muito, agora o choro escorria por dentro,
lá onde já tudo flutuava meio esquecido.
E era uma vez o perdido de uma asa recatada.


- Filipe

Terça-feira, Dezembro 30, 2003

On the floating, shipless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang “Sail to me, sail to me;
Let me enfold you.”
Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning, broken lovelorn on your rocks.
For you sang, “Touch me not, touch me not, come back tomorrow.”
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I’m as puzzled as a newborn child.
I’m as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: “Swim to me, swim to me, let me enfold you.”
“Here I am. Here I am, waiting to hold you.”

This Mortal Coil - Song to the siren

Sábado, Novembro 22, 2003

"Como te ves daqui a 10 anos?"

Vejo-me no topo do mundo, a cagar de alto para ele.


e tu?

Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Era uma vez uma carta que não tinha nada de mais.
Era apenas uma folha, pequena e branca,
mas não era assim que Ivaníssia a via.
Para ela, uma folha em branco era uma janela para um outro mundo,
nela poderia escrever o que quisesse
e ser então passaro ou baleia, seta ou perifrase,
incandescência, brilho, amizade, paixão ou mesmo amor.

No esforço que ali se coadunava com a mais erudita imaginação,
Ivaníssia culminou num tremendo gemido
que se viu transcender com um "sploft" suave
e um friozinho molhado na base da espinha.

Atravessou uma ultima vez a carta em branco
com o seu doce e agora sereno olhar,
amarroutou-a um pouco, puxou o autoclismo e limpou o rabo.


- Filipe

Quarta-feira, Setembro 17, 2003

Um calcanhar, ainda sujo de talco
que saltita do branco para o azul,
tropeçando aqui e além
num e noutro joelho,
resolveu, um dia, sorrir à lua.

E a lua choveu bramidos de
prazer - era já o seu terceiro
encontro com as estrelas - por
entre raios e coriscos, deixando
uma fresta abrir-se para que o sol,
imponente, se pudesse amanhecer.


- Filipe

Quinta-feira, Setembro 11, 2003

Éramos tudo...


...e eu nunca soube quem éramos.
Nem depois de partires pelas ruas cinzentas em que as pedras falavam e nada diziam
com sentido - nada diziam de nós e continuávamos, adormecidos nos rostos da manhã,
sorumbáticos, os eternos cadáveres de pés trocados à nascença. Eu continuava mudo,
sem saber que estava despido de luz nas minhas tentações de acordar. Tu também
adormecias a cada segundo de dor e de prazer que trocávamos com a madrugada. Assim
gritávamos pela noite e pelos sonhos alheios.

Entrámos pela casa de chá dos Sóis ternos de Novembro. Entrámos e, ao sair,
não olhámos pela ordem das volúpias. Perguntaste-me se as minhas mãos estariam a
perder-se em ti e eu não respondi, não o suficiente. Seguiste, atrás de mim, perdida
no chão e com a mão ao lado da minha - éramos tudo o que agora já não somos.

Esse caminho - aquele mesmo que tantas vezes percorremos sem saber que, no cimo da
colina, se quedava, inerte e triunfante, a mesa de sal que durante tantos dias
percorreu as nossas faces. Estávamos velhos para este tipo de esforços matinais
- ainda nem sequer tínhamos a carne quente e já seguíamos por uma nuvem desenfreada.
Era tarde demais para voltarmos atrás, os nossos pés já não nos pertenciam, a rua já
não nos via nem a sombra nos reflectia no chão imensurável. Era o calor das almas a
nú.

E tu eras somente isso, naquele dia: um anjo nú, despido de pesos e das palavras que
todos os dias ouvíamos por aí, e que as ninfas de cal nos tendiam a ofertar, sem saber
que a nossa casa é infíma demais para tanta realidade diária. Calámo-nos, sem saber.
Procurámos, ansiosos, sediosos, esfomeados e sem forças para nos levantarmos.
Olhámos em volta: nada vimos.

Quem eras tu, naquele dia?

Nunca mo disseste, nem mesmo depois de nos termos debruçado sobre a varanda
do mar onde, por acidente, acabámos a noite a banhar o marasmo destes dias - na água
tépida de mais um amigo frio. E as ondas levavam-te, levavam-te e eu só podia ver-te
fugir, entre a espuma e a neblina, gritando, olhando. Não olhaste para trás. Perdi-te
aí, por não saber nadar suficientemente rápido para te poder agarrar pela mão e voar
entre as estrelas que querias apagar ontem.

Mas elas brilham ainda.
Não conseguiste apagá-las?

Eu só queria acender um cigarro e tu nem soubeste chamar-me pelo nome que então tinha,
aquele que tu originaste, ébria pelos primeiros raios de sol daquela manhã. Foi nessa
hora que te vi. Foi nessa hora que o meu cigarro te abraçou, a ti e à tua chama envolvente.

Eu não passava de um corpo em chamas, ludibriado pelos torpores que surgiam
sempre de ângulos diferentes. Eu tentava esquivar-me, só isso. Não aceitaste. Corri
meio mundo nesse minuto, empurrado pelo teu perfume ardente. Com os teus olhos fixos
nos meus dedos, escrevia-te uma carta, daquelas que tu nunca saberias ler.

Todo o papel era feito de carne, da minha carne.
A tinta, essa, era vermelha. E provaste o meu sangue.
E agora?

Cala-me a noite que jaz nas minhas mãos. E seremos assim os eternos navegantes
deste crepúsculo que não conheço o nome. Estou velho para andar aqui, de mãos viradas
para o Céu, tentando tocar-lhe - tentando tocar-te. Perdoa o meu dedo incandescente que
te aponta, entre todas essas mulheres de carne e de ossos.

E hoje voltamos, agora atravessamos a porta do nunca, onde seremos nada mais que nós,
nús e sinceros. A noite será o fim do meu olhar, cansado e terno. E tu.. tu serás
quem
me vê, ali, naquele mesmo recanto, de mãos quentes apoiadas nas costas do mundo, à
espera que algo aconteça, sem sabermos que estamos perdidos.

Chega-nos o vento agora. Consegues ouvir-me, implorando-te que amanheças de
novo, nesta tarde? Mas peço-te: amanhece diferente hoje, amanhece de olhos virados
para Oeste, porque aqui, onde as garças tocam a nossa música, estaremos presos ao dia
de ontem. Acorda, hoje o dia já acabou, e amanhã desaparecerás.


- Matias Almeida in "Recantos de uma asa fingida."

Quarta-feira, Setembro 03, 2003

- Carta -



Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...

Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
e tudo o que vejo...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
numa chama minha e tua.

Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado
e à palma da tua mão...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.

Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...

...nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.

Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.


- Toranja

Quinta-feira, Agosto 14, 2003





Eram barcos, eram velas e tudo termina em azul...


Submergido na íngreme vetustade multissecular da serra,
cujo inverosímil odor encerra o suor na tempestade de emoções
que nos humdece os sentidos com tremulos arrepios envolventes
sem memoria, nem passado... só presente, sôfrego de um pudor que já não tem.
Mas já dizia a tia Hermínia: "Cocem o rabo para que vos cresça o cabelo!".
E os macacos coçaram como simbolo do imponente inevitável.
O castelo urrava lá de cima com o acelerar da tua respiração
enquanto as arvores gritavam e a terra ficava molhada
ao som do teu gemer a badalar no meu ouvido,
como uma peuga mal cheirosa esquecida no canto mais obscuro do quarto,
onde apenas as estrelas iludem a escuridão
ao som de paços entrecortados num outro espaço qualquer.
Depois os gambusinos peidam-se, arrotam, rodopiam
e saltitam do vazio para o nada, como quem quer chorar,
procurando o incontestável banco da ilusão,
e saltitam acrescentando mil nadas ao vazio da claridade.
Não digo isto por saber, mas por ter pelos no rabo para os quais
frequentemente cago, deixando ali toda a réstia de higiene...
E gozo com o inferno que me envolve...
Tento obter assim a infame glória.


far
13/8/2003

Segunda-feira, Agosto 11, 2003

Amigos de verão


Duas pegadas, navegando lado a lado
na areia que adormece aos pés da ondulação,
caminham profundas, bem definidas e marcadas.
São construções hirtas de betão
que parecem não vergar perante força alguma.

E depois vem o mar, vem o vento,
vem a força de tudo o que emerge com o nascer
de um novo dia, uma nova pagina no efémero,
um novo parágrafo no livro.
E tudo o que era forte torna-se fraco
Amolece e derrete-se com o tempo
ate ser só mais um bocado de areia à bolina no mar.


- Filipe

Domingo, Julho 27, 2003

- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
(...)
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor...Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.


in "O Principezinho" - Antoine de Saint-Exupéry

Quarta-feira, Julho 16, 2003

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamos-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma cousa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às cousas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...


- Bernardo Soares in "O Livro do Desassossego"

Segunda-feira, Julho 14, 2003

again


You're tearing me apart
Crushing me inside
You used to lift me up
Now you get me down
If I
Was to walk away
From you my love
Could I laugh again ?
If I
Walk away from you
And leave my love
Could I laugh again ?
Again, again...

You're killing me again
Am I still in your head ?
You used to light me up
Now you shut me down
If I
Was to walk away
From you my love
Could I laugh again ?
If I
Walk away from you
And leave my love
Could I laugh again ?

I'm losing you again
Like eating me inside
I used to lift you up
Now I get you down

Without your love
You're tearing me apart
With you close by
You're crushing me inside
Without your love
You're tearing me apart
Without your love
I'm dazed in madness
Can't lose this sadness
I can't lose this sadness

Can't lose this sadness

You're tearing me apart
Crushing me inside
Without your love
(you used to lift me up)
You're crushing me inside
(now you get me down)
With you close by
I'm dazed in madness
Can't lose this sadness
It's riping me apart
It's tearing me apart
It's tearing me apart
I don't know why
It's riping me apart
It's tearing me apart
It's tearing me apart
I don't know why
I don't know why
I don't know why
I don't know why
Without your love
Without your love
Without your love
Without your love
It's tearing me apart

by keeler/griffths/walker
performed by Archive

Quinta-feira, Julho 10, 2003

Angel


Spend all my time waiting for that second chance
For the break that will make it ok
There's always some reason to feel not good enough
And it's hard at the end of the day
I need some distraction or a beautiful release
Memories seep from my veins
Let me be empty and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of the Angel far away from here
From this dark, cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage of your silent reverie
You're in the arms of the Angel
May you find some comfort here

So tired of the straight line, and everywhere you turn
There's vultures and thieves at your back
The storm keeps on twisting, you keep on building the lies
That make up for all that you lack
That don't make no difference, escape one last time
It's easier to believe In this sweet madness
Oh this glorious sadness
That brings me to my knees

In the arms of the Angel, far away from here
From this dark, cold hotel room
And the endlessness that you feel
You are pulled from the wreckage of your silent reverie
You're in the arms of the Angel
May you find some comfort here
In the arms of the Angel; may you find some comfort here"


- Sarah Mclachlan

Quarta-feira, Julho 09, 2003

Tremoços



Bebia e bebia.

"Liberte a ovelha e ninguém se magoa" disse o Major Tom.

Uma ramagem seca rebolava ao sabor duma fria aragem,
que ao passar incomodava os osteoporados joelhos da Sra. Doubfire.
Velha e cansada, na barulhenta cadeira de baloiço
a Sra. Doubfire lia o jornal e lambusava uma cerveja.
"Homem de 35 anos é descoberto decapitado nos subúrbios de Lisboa".
Um rato, pai de família, regressava a casa depois de um dia cansativo,
e é brutalmente esmagado por uma caneca de cerveja.

"Nunca me apanharás vivo Tom! eu morro.. a ovelha morre!"

Os pequenos ratos espreitam na toca e não se sustêm nas pernas ao
olharem o corpo do pai inerte, ensanguentado e embebido em cerveja.
Uma lagrima humedece o enrugado rosto da alentejana anciã.
Enquanto os seus olhos, quase cegos, vão lentamente interpretando
as letras perdidas do jornal, seu cérebro vai aglomerando as letras em palavras,
as palavras em frases e das frases concluía que o homem de que a noticia falava
era seu filho!
"após mais uma noite de prostituição masculina, esta não terminou com lucro
para o travesti prostituto mas sim em tragédia.."
O exausto coração da velhota começa a gerir um maior fluxo de sangue.

"LARGA A ARMA, CONSIGO ACERTAR-TE NO OLHO ESQUERDO DAQUI!"

A velha pega na caçadeira do marido.. e aponta para a televisão,
não aguenta mais com As Aventuras da Ovelha Vermelha.
Mas o parkinson agita-a e uma flatulência é libertada.
Inconsolável pela barbara morte do pobre animal,
a velha busca um bocado de queijo para dar a rata viuva e aos ratinhos órfãos.
Ao regressar à cadeira de baloiço, um imponderável resto de
intestino grosso do defunto rato avizinha-se do sapato da velha.
Escorregando naquela víscera fatal, abre os braços e como por
perversidade do destino, atinge a caçadeira.. que cai no chão e dispara
atravessando o seu corpulento ser.

"AVISEI-TE TOM!"
CRASH! BUM! BANG!
"PUM!"




- Filipe

Terça-feira, Julho 08, 2003

I Miss You

i miss you
but i haven't met you yet
so special
but it hasn't happened yet
you are gorgeous
but i haven't met you yet
i remember
but it hasn't happened yet

and if you believe in dreams
or what is more important
that a dream can come true
i will meet you

i was peaking
but it hasn't happened yet
i haven't been given
my best souvenir
i miss you
but i haven't met you yet
i know your habits
but wouldn't recognize you yet

and if you believe in dreams
or what is more important
that a dream can come true
i will meet you

i'm so impatient
i can't stand the wait
when will i get my cuddle?
who are you?

i know by now that you'll arrive
by the time i stop waiting

i miss you



Björk

Domingo, Julho 06, 2003

"My light shall be the moon and my path - the ocean . . . My guide the morning star as I sail home to you . . . "

- Enya

Sábado, Julho 05, 2003

Pintura


Ouve-se ao longe o badalar de um rebanho que o meu olhar não absorve.
Do moinho onde estou, avisto o que outrora terá sido o lar para algum pastor e agora repousa ali, em ruínas, mistificando a paisagem.

Um pouco mais à frente um pequenito lago resiste à toada de calor que anuncia o verão...
A cidade adormece nas minhas costas, ao fundo, do lado esquerdo, uma pequenita capela salpica de azul e branco a verde monotonia da tela...

Em frente, onde o olhar se perde, sinto-me invadido por vários tons de laranja, coordenados por uma rodela avermelhada e efervescente que se vai diluindo na irregular linha do horizonte.

Quando o ultimo raio se extingue, sinto a escuridão imiscuir-se com a nostalgia e mantenho a esperança que, do outro lado, alguém O esteja a ver nascer...

É assim o pôr-do-sol, no Alto de S. Bento, em Évora.


- Filipe

Sexta-feira, Julho 04, 2003

You've got A Friend


When you're down and troubled
and you need a helping hand
and nothing, oh nothing is going right,
close your eyes and think of me
and soon I will be there
to brighten up even your darkest night.

You just call out my name
and you know wherever I am
I´ll come running, oh yeah baby, to see you again.
Winter, spring, summer or fall,
all you got to do is call
and I'll be there yeah yeah yeah
you've got a friend.

If the sky above you
should turn dark and full of clouds
and that old north wind should begin to blow,
keep your head together
and call my name out loud now
soon I'll be knocking upon your door.
You just call out my name
and you know wherever I am
I´ll come running, oh yes I will, to see you again.

Winter, spring, summer or fall,
all you got to do is call
and I'll be there yeah yeah yeah.

Ain´t it good to know
that you´ve got a friend
people can be so cold
they'll hurt you and desert you
well they'll take your soul if you let them
oh yeah don't you let them.


- Carole King


Quinta-feira, Julho 03, 2003

where am i to go?
what feelings will i know?

where am i to be?
what's in my life for me?

will i sing a song?
will i make a better day?

And you...
will you come allong..?


Sonho


Saio disparado e que vejo?!
Lá estás tu.. pura e esguia
Encostada nessa parede branca
Esperas-me.
Tens um fio dental negro, e por cima
Apenas uma camisa de noite transparente.
Olhas-me como se me fosses devorar.
Arrepio-me, nunca te tinha sentido assim
Estás em todo o lado, a tua língua parecem
Os dedos das mãos, e dos pés...
E os cotovelos também!

Espasmo num culminar de emoções
Em que nunca antes me imiscui
para onde quer que olhe só vejo as paredes,
O tecto.. sinto-me rodopiar..
Disperso-me por todo o quarto
Estou em tudo e em lado nenhum
Cera morrente ao longo da vela
Perdida no calor que a chama lhe impinge.
Esfrego os olhos, estou vivo!
Olho para a lua através da vidraça
E nada mais me ocorre senão
"hmm que será que esta a dar na televisão?!"


Filipe

Terça-feira, Julho 01, 2003




Segunda-feira, Junho 30, 2003

"Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

- Bernardo Soares

Por momentos esqueci todas as confusões.
As dúvidas, as incertezas...
Abstraí-me mesmo das coisas, como se elas fossem rotineiras.
Agora havia algo mais importante...
Tinha-te aqui... alguem que me sente como eu me sinto... e gostei.
Agora vou-me vestir, antes que comece a ficar com frio....

"E assim escondo-me atraz da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da meza, d'onde subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam - o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível."

- Fernando Pessoa

E morri.
Nessa forma inolvidável de sofrer tão passivamente
Que me excomunga as virilhas num fervilhar constante.
Introspeccão.. derramo-me em dissertações
E no começo do túnel inverto o sentido da marcha,
Olho para trás e da luz destinjo uma conclusão:
Só seremos perfeitos quando atingirmos o superior
Estado do Escaravelho!
Há que saber fazer a vida rolar-nos por entre as patas,
Manejar bem o fruto, até à nossa toca,
Para depois nos podermos deliciar
Com essa ameixa amestrada
Que, por muito nojenta que possa aos outros parecer,
Para nós será o sustento de inúmeros gélidos momentos.

E sorriem.
Como retardados, como palhaços, como otários!
Ignobilmente abraçando e acenando perante toda a futilidade,
Caras, corpos, "é só mais um" - e arrancava-lhe o coração!
Mentes automáticas redondilhadas pela métrica
Seguidores de formas meticulosamente traçadas
Inauditas vozes por rimas desfolhadas
Navegam rios e vidas sem nunca serem vividas
E jamais aproveitadas!!


Filipe

Quarta-feira, Junho 25, 2003

Máscara


Pus uma máscara, ontem. encontrei-a por acaso, enquanto me olhava no espelho. Pareceu-me uma boa ideia colocá-la. É da cor da pele - muito subtil, percebes? Mas cobre toda a cara, sem que se note. Esconde-me, e eu gosto. Posso olhar para as coisas com outros olhos, agora. E as pessoas vêem-me também de outra forma. Não sei se isto é bom ou mau, mas também não importa.
Vem. Pergunta e eu responderei. Talvez. Eu já fiz a minha parte, há tempos. Agora é a tua vez. Pergunta e eu responderei. Talvez. Vem, tenta quebrar a barreira. O que estará por detrás destes olhos de plástico, não te sentes curioso?
Desperta. Desperta-me. Faz-me amar-te-me. Pergunta e eu responderei. E então, no fim, talvez eu te deixe ver-me. Tirar a máscara. Talvez.

E se gostasses mais da máscara?


(Desconheço o autor)



Segunda-feira, Junho 23, 2003




Mata-me Outra Vez


Fala-me um pouco mais.
Era tão bom ficar..
O mal é que eu já não sei quem eu sou!
Eu não sei se eu sou capaz
De me ouvir.

Fala-me um pouco mais.
Era tão bom subir
E dar o que eu nunca dei a ninguém.

Sei que é bom teu travo a tudo
O que é mortal.
Já agora,
Mata-me outra vez.
Era tão bom, direi:

Tudo tem um fim!
E aqui não há
Ninguém que possa ter o mundo
Para dar.
Se um dia voltar,
Vai ser só mais uma forma
De me ausentar.
Daquilo em que eu não
Quero pensar.

Já tudo teve um fim,
Já que eu,
Estou por cá.
Eu digo como é fácil
Para mim se já não dá.

Sei que é bom teu travo a tudo
O que é mortal.
Já agora,
Mata-me outra vez.
Era tão bom, direi:

Paro de andar..
Paro pra te ouvir!
Paro para ver se é bom pra mim.
Se é melhor do que uma vida
Tão só e prenha de ninguém,
E vejo que é bom dizer...
Paro pra te ouvir.
Mas foi só
Para ver,
Se o futuro é para nós.
Para quem tem o mesmo mal de
Não saber amar.
Falo que,
Pensar em mim,
É cura e faz-me acordar.

Ou dormir.

Fala-me um pouco mais.
Era tão bom subir
E dar o que eu nunca dei a ninguém!

Sei que é bom teu travo a tudo
O que é mortal.
Já agora,
Mata-me outra vez.
Era tão bom, direi.


Ornatos Violeta

Sábado, Junho 14, 2003

Apesar da penumbra ainda te vejo...
lá estás, outra vez, fria e ríspida
como sempre foste e gostaste de ser.
Mas agora tudo é diferente.
Agora a treva envolve-te de
uma tal forma que para mim já és só
mais um bocado de escuridão...
Pode ter poder para ainda me afectar
mas já não fere, já não magoa, já não destroi.

Podes soprar como o vento
ou trovejar como as tempestades,
mas a tua chuva perdeu a capacidade
de humedecer a minha alma.

Já não choro por ti.

Filipe

Sexta-feira, Junho 13, 2003

E depois pronto!
Perdemos a noção de tudo o que passou;
a vida funde-se naquele ponto, o passado e futuro perdem
todo e qualquer fundo de validade que possa ter sido
artificialmente extendido pelo dono do supermercado.
Enfim, é a unica forma que temos de ir navegando
pode ser que um dia o barco se afunde e aí teremos que nadar
até à exaustão da morte!
Será então
o fim.

Filipe

Quinta-feira, Junho 12, 2003


can you please be mine?
can you stand still while i draw your line?
if i leave the world and dive into the sand
would you be so kind
whould you hold my hand?
i seat here, across the bitter
and i think about the life we earned
should i cry, laugh or love,
should i embrace the sky above?
or must i swin through the poop lake
and remain forever in my shitty state?


Filipe (mesmo ah bocadinho...)

Quarta-feira, Junho 11, 2003

I Choose Us


Jack: We have a house in Jersey! We have two kids. Annie and Josh. Annie's not much of a violin
player, but she tries real hard. She's a little precocious, but that's only because she says
what's on her mind. And when she smiles -- ... And Josh, he has your eyes. He doesn't say much,
but we know he's smart. He's always got his eyes open. You know, he's always watching us.
Sometimes, you can look at him and you just know he's learning something new. It's like
witnessing a miracle. The house is a mess, but it's ours. After 122 more payments, it's going
to be ours. And you, you're a nonprofit lawyer. That's right. You're completely nonprofit. But
that doesn't seem to bother you. And we're in love. After 13 years of marriage, we're still
unbelievably in love. You won't even let me touch you till I've said it. I sing to you. Not all
the time, but definitely on special occasions. And we've--we've dealt with our share of
surprises and made a lot of sacrifices, but we stayed together.

You see, you're a better person than I am and it made me a better person to be around you. I
don't know. Maybe it was all just a dream. Maybe I went to bed one lonely night in December and
I imagined it all, but... I swear, nothing's ever felt more real. And if you get on that plane
right now, it'll disappear forever. I know we could both go on with our lives and we'd both be
fine. But I've seen...what we could be like together. And I choose us.

Please, Kate. One cup of coffee. You can always go to Paris. Just...please. Not tonight.

Kate: Okay, Jack.

Jack: Okay.


In "The Family Man"
by David Diamond & David Weissman

Segunda-feira, Junho 09, 2003

O outro lado


O irritante fzzzt de um néon na empobrecida rua da cidade
avermelha as paredes e cria uma angustia ao passar.
As pedras da calçada, humedecidas e exaustas de uma
poluição compulsiva todo o dia, repousam agora,
tossindo aqui e além.. ou afogando-se num pedaço
de terreno não tão bem nivelado.
"xploft" - enfio uma pata na poça e o som assusta
Dois gatos que roíam os restos de um qualquer caixote do lixo.
"PUM!"
Corro para os caixotes do lixo que os gatos comiam!
"Trás o relógio!! o relógio porra!!!"
Splat splat splat Splat splat splat Splat splat splat
Oiço-os a afastarem-se.
Sinto agulhas perfurarem-me todos os poros,
tento engolir mas tenho a boca completamente seca e
só então me apercebo de que o meu coração está quase fora do peito.
Estou sentado na cara de um mendigo!
Num salto de horror encosto-me à parede e olho para ele
que, para minha surpresa, era uma menina pequena que
não devia ter mais de 8 anos. Acordou,
talvez porque ao levantar-me descobri de novo a sua face
ao sabor do gélido vento que se sente esta noite.
Olhou-me...
Tremi...
Aquelas enormes safiras banhadas de preto
penetraram no mais profundo de mim confortando-me e inquietando-me.
Ergueu-se!
Encolhi-me!
Após ter ouvido o disparo, o medo ressentia-se em mim
mesmo através do mais dócil dos seres.
Senti que percebeu o meu medo porque se aproximou muito de vagar,
fui-me sentindo pouco à vontade, mas mais confiante.
Nunca tirou os olhos de mim, era como se ela fosse o adulto
e eu a criança assustada!
Tentei recompor-me, mas voltei a perder as forças quando me tocou.
Tinha as mãos sujas, cheias de calos e feridas de tanto rastejar
pelas ruas em busca de um pouco de dignidade, de um pouco de amor
sob a forma de pão para lhe acalmar a cavalgante fome.
Tinha as roupas numa miséria, rotas, a cheirar a lixo e
infestadas de pobreza. Toda ela era um farrapo,
mas nunca nenhuma mão me tinha tocado
com aquele calor, com aquele carinho, nunca nenhum toque
me transmitiu tanto como aquele amor que me enaltecia
os olhos, que de repente se lembraram do assalto e
olharam cobertos de terror para a poça de sangue que envolvia
o homem deitado a apenas alguns metros dali.
Ela também o viu. Largamos instintivamente numa corrida
até ao homem e, como se estivesse combinado, ambos parámos a
cerca de um metro dele.
Tinha um tiro no peito, estava como moribundo, imóvel,
aparentemente nenhum estímulo o poderia retirar dali.
Cheguei-me mais perto, mas a menina já estava encostada
à sua face procurando no sufoco um pouco de ar.
Deu-lhe dois estalos, apertou-lhe o peito três ou
quatro vezes, falava-lhe, gritava-lhe...
Estupidifiquei.
Ali estava aquele ser minúsculo,
sem qualquer experiência de vida a lutar pela
de um desconhecido, alvejado, praticamente morto
Se já não o estivesse!
Ela levantou-se, correu a gritar pela rua deserta,
seus pequenos pés descalços chapinhavam nas poças
à medida que avançava naquela azafama.
Começou a tocar às portas, pegou em pedras, partiu
carros, quebrou a montra de uma loja... num rompante
aquela sossegada rua tornou-se num alarido de arraial.
Assim que ouviu uma sirene a exausta criança caiu sobre si mesma,
ergueu-se e como um soldado a regressar duma guerra passou
por mim e pelo homem, olhando-o de lado.
Neste momento morri tanto, de parvo que estava, como o homem.
Ela dirigia-se para os caixotes do lixo e, sem parar de andar,
olhou-me e disse firmemente: "Anda!"
Uma faísca incendiou-me de cima a baixo e despertei daquele
estado sonambúlico. A sirene estava mesmo ao virar da rua,
corri até à miuda que, ao chegar, se voltou a deitar como
se nada se tivesse passado e eu fiquei entre os caixotes.
Vi tudo: a policia que chegou meio atónita e começou a tomar
Notas da ocorrência na montra antes de reparar no corpo
Que jazia, agora seguramente morto, no chão; a ambulância, que chegou
pouco depois com paramédicos que rapidamente observaram
o homem; ouvi ainda um ténue "pode ser que este se safe!" e
em menos de hora e meia a rua estava deserta novamente, os carros
partidos, a montra barricada, parte do sangue limpo, outra parte
dissolvido na chuva miudinha que entretanto insistiu em cair e eu
ganhei consciência de que nem me lembrava para onde ia antes de
tudo isto acontecer...
Olhei a menina nos olhos.. ela virou aquelas negríssimas azeitonas
em direcção a mim e de repente a sua cara ganhou luz.
Primeiro verde, depois vermelha, azul, amarela...
Passados breves instantes chegou também o som
"Trrratataa PUM PUM taratata PUM PUM PUM"
Nem eu nem ela desviámos o olhar para ver os foguetes. Parecia que
Tudo acontecia em câmara lenta fora de nós, a chuva caia lentamente,
os foguetes mal os ouvíamos, só lhe tínhamos a luz, a claridade.
Com a mesma suavidade com que um pato flutua na água serena de um lago,
a sua cara debotou num sorriso terno e sensível de onde saiu um
sereno "Feliz Ano Novo!". Senti-me invadido por uma paz imensa,
Como a levitar num sonho a dois. Seres tão diferentes e tão
unidos na cumplicidade de um olhar...
Abanei a cauda, lambi-lhe a poluída bochecha e deitei-me a seu lado.
Não a olhei.. mas senti que durante momentos ambos ficamos de olhos
abertos a sentir o calor um do outro, até que num suspiro feliz
adormeci.


- Filipe

Terça-feira, Junho 03, 2003

"Naked"

I wake up in the morning
Put on my face
The one that's gonna get me
Through another day
Doesn't really matter
How I feel inside
'Cause life is like a game sometimes

But then you came around me
The walls just disappeared
Nothing to surround me
And keep me from my fears
I'm unprotected
See how I've opened up
Oh, you've made me trust

Because I've nver felt like this before
I'm naked
Around you
Does it show?
You see right through me
And I can't hide
I'm naked
Around you
And it feels so right

I'm tyring to remember
Why I was afraid
To be myself and let the
Covers fall away
I guess I never had someone like you
To help me, to help me fit
In my skin

I never felt like this before
I'm naked
Around you
Does it show?
You see right through me
And I can't hide
I'm naked
Around you
And it feels so right

I'm naked
Oh oh yeah
Does it show?
Yeah, I'm naked
Oh oh, yeah yeah

I'm so naked around you
And I can't hide
You're gonna see right through, baby

Segunda-feira, Junho 02, 2003

uma leve penumbra ameaça as incautas vozes que se propagavam por entre o pequeno cubiculo de cultura.

Nas mesas jogava-se damas, praxis e outros jogos de tabuleiro, os sorrisos e conversas indundavam a sala de um bem estar que há muito não sentia.

Depois pronto.. tudo aconteceu como tinha que acontecer... aquele sentimento, finalmente senti a paixão que há tanto tempo ansiava.

Fiquei apaixonado, estou apaixonado :)

(tenho sono.. vou completar isto mais tarde)

Domingo, Junho 01, 2003

- As pessoas são más... Correm... Vão a correr para o metro, para chegarem 5 minutos mais cedo a casa... como se chegarem 10 minutos mais tarde fizesse diferença.. rodeiam-se destas cenas.. a certa altura tudo perde o sentido, é tudo tão rasca...
- Eu compreendo-te.. já me senti assim antes, tive grande necessidade de isolamento.. mas depois passou.
- Pois, mas eu sempre fui assim.

Sábado, Maio 31, 2003

Se tivesse uma mesa de snooker em casa deixava de ter vida.

Sexta-feira, Maio 30, 2003

- porque é que ficamos mal quando a outra pessoa anda com alguem?! tipo.. se não soubermos não nos faz mal, mas a partir do momento que sabemos, mesmo que seja uma cena do passado pronto.. estraga tudo.. porque?
- opá, porque ficas magoado... queres aquela pessoa só para ti!
- mas isso não é um bocado egoista? tipo desde que enquanto estejamos com ela esteja tudo bem...
- eu não acho egoista.. acho que é mesmo assim...
- ok..

Quinta-feira, Maio 29, 2003

Voltaste a encontrar-me. Vieste pela rua, sem avisar, com as pernas a tremer e os olhos na calçada. Depois, como sempre, abordas-me com as tuas loucuras e insanidades, incompreendido como sempre te julgas, dizendo que não podes viver mais assim. Continuas a ter essa visão distorcida e a viver de forma completamente contrária ao que pensas...

Começo a ignorar-te (como sempre faço...) e então perdes-te num enorme monólogo a que vou acenando apenas com a cabeça e dizendo sim. As tuas palavras não mudam... não preciso de as ouvir, já as conheço.

"não sei que dizer.." - começas... e antes que te possa parar irrompes em mais uma dissertação. Nesta altura já não falas comigo, perdes-te completamente numa esquizofrénica conversa contigo.
"preciso..
vou..
porra..
tenho a cabeça quente
não sei..
as coisas não são assim!
possas..
não sei que tenho..
preciso de algo..
busco uma resposta para uma pergunta que ninguém fez..
perco-me na ansiedade.. como me vou perder na estrada..
a noite consome-me, o doce chorar do céu não acalma a minha alma
num bar.. com musica mais alta que os meus próprios pensamentos..
para de tudo me abstrair..
para assim conseguir extrair a dor que me atormenta..
o buraco em que a minha vida se tornou..
talvez perdendo-me me encontre..
talvez morrendo eu viva.. talvez adormecendo acorde..
e essa resposta q tanto busco.. esse sentimento que quero descobrir..
esse raio que não te quero atirar..
será que não percebes..? será que não consegues ver? será que estas tão cegada pela tua própria magoa que não vês a minha?
a minha magoa é a tua, perdida em mim..
o meu amor (se é que tal coisa existe) é a coisa mais pura e platónica que já senti..
as minhas desconfianças.. a atracção q sinto por outras mulheres, a habituação que por vezes sinto para ti, as vezes que me farto..
não são errados.. não são incompatibilidades do amor..
não são sofrimentos a infligir.. são apensas verdades absolutas, com as quais todos vivemos mas a nossa sociedade reprime..
estou avançado para o meu tempo.. processa-me por defender o Amor.. e a tentadora sexualidade...
a nossa alma e o nosso corpo não se deveriam misturar nunca..
porque essas entidades sim são incompatíveis..
os nossos desejos.. a "tentação" à qual segundo a igreja não devemos ceder..
não são mais que instintos.. inatos.. todos os temos..
a ideia do casal lindo.. e feliz que vivera na paz dos anjos para sempre é utópica
não existe
não é real..
um dia todos o irão ver..
sou apenas um besouro que esvoaçou pelo caminho errado.. e num portal do tempo aterrou
Agora morro.. talvez amanha ao acordar volte a ressuscitar."

"És um cabrão" surge-me logo dizer, mas estagno antes de poder falar... Lembro-me e repenso-me, olho-te e compreendo-te...
Não só te compreendo mas sinto o que dizes e confundo-me.

E então sinto a tua raiva, sinto a incompreensão que sempre te atinge quando olhas para o resto do mundo, rodopio, enlouqueço e fujo.

Estou farto que nunca mais saias de dentro de mim....

Quarta-feira, Maio 28, 2003

Exageros


O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadissimo, e virou-se para mim:
- Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que te digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso ter descaramento.

Ajeitou-se no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio.


MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA


Que belissimo texto do soberbo Leiria.

Terça-feira, Maio 27, 2003

1110100 1100001 1110011 1110011 1100101
1100010 1100101 1101101
1101110 1101111
1100011 1100001 1101101 1110000 1101111
1100001 1100100 1100101 1101100 1100001 1101001 1100100 1100101


- É uma pergunta interessante...
- Porquê?
- Porque eu não sei a resposta...


Sexta-feira, Maio 09, 2003

Era uma vez um rapaz..


No cimo do penhasco, à beira mar, distante de tudo, Zabrilhafro, deitado na sua pequena cama de
toalha, conseguia ouvir, claramente, o mar a ralhar, austeramente, com as rochas que bocejavam
inertes aos pés da falésia. Estavam todos tristes: o chinelo do pé esquerdo, a Labria e o Zuista.
O horizonte, toldado por uma áspera e semítica neblina que tornava o escorrido cabelo de Zabrilhafro
numa oleosa pasta de gordura húmida, desfaz-se agora entre os primeiros raios de sol que teimam surgir.

Eis senão quando, e imprevisivelmente como nunca antes se tinha visto em história alguma, acontece
*algo* que vem masturbar (er... s/masturbar/perturbar) esta paz inicial! Rufam tambores.. Que será?!
OH MEU *DEUS*!! Zaragaralharado avança perigosamente na direcção da cabana de Zabrilhafro....!!!!
Zaragaralharado é o patriarca de uma poderosa família daquela falésia, por deter o monopólio de todos
os urinóis que a zona dispõe. É uma família rasgada e odiosamente fresca. De forma que a chegada de
qualquer Zaragaralharado é sempre negativa.. mas quando se trata d'O Zaragaralharado em nervos e músculos
o chão treme, as folhas agarram-se ao tronco, as gotículas de orvalho escorrem e todos pasmam por uma
qualquer atitude vinda de qualquer lado para qualquer sitio.
Com a câmara apontada ao seu olho, Zabrilhafro liberta a sua pupila enormemente dilatada. Empiricamente
já sabe que quando tem comichão no rabo algo de terrível está prestes a acontecer!



Fim do capítulo primeiro...

Visite a vastissima novela que estou a escrever em Falésia

Terça-feira, Abril 29, 2003

Gratificante, é o minimo que se sente ao ver finalmente a porcaria da tarefa cumprida!

"tá feito! não mexo mais nisto" e viro-me para o outro lado da cama! que sensação.. que paz de alma.. é o dormitar ao rubro.. tou livre, acabei.. finito!!!! :))

e então.. fecho tudo o que diz comp, abro o que diz CG e começo outro projecto...........

Domingo, Abril 27, 2003

Só quero dormir


"Vá lá filho... acorda!"
Não! Estou farto, quero dormir!
Não quero acordar, ter que enfrentar todo o gelo que abunda lá onde os lençóis não me aquecem e as palavras realmente doem! Não quero que o carinho que hoje nos embala seja o ódio que amanhã nos desmonta e rasga a alma... Lá onde todos não são nada e cada um é muito pouco porque neles vive o fingimento de princípios, ideias ou sentimentos, visando de alguma forma beneficiar ou simplesmente enaltecer-lhes a ideia que de si guardam.. Argh.. lá é o ego que dita as regras e o dinheiro que abre as portas! Não...
Quero continuar a saltar do cimo daquela falésia que banha o mar com seus rochedos e mergulhar num aroma de sereias e ovelhinhas vermelhas que me sorriem e acenam enquanto nado até à porta dos fundos para então me enxugar frente ao magnífico por do sol, na companhia de uma qualquer rosa e três pequenos vulcões.
Quero continuar a boiar pelas noites de olhos postos nos céus, acariciado pela Lua e beijado pelas estrelas...
Quero navegar vales e montanhas de felicidade e amor...

Para que acordar e viver, quando posso dormir e sonhar?

e tinha mesmo que postar!
Porque sim!
não só porque sim.. mas também.
A vida é cada vez mais uma sucessão de nãos...
não ter ferias, não dormir, não agir, não pensar, não viver, não dar asas às capacidades que costumavam tão calmamente abundar em mim nestas noites de pouco sono..

O desenho custa cada vez mais a desenhar, a imagem final vai sempre depender mais de quem a observa, mas o esboço que traço não me devia exigir tanta tinta, tanta borracha... tanto papel...!

Vou dormir o que restar desta noite, vou sonhar, vou deixar as portas abrirem-se para conseguir apreender o que me falta, o que me contem, o quem me mantem neste estado de quase ser... quase conseguir... quase fazer! Tenho que rasgar-me e saltar, poderoso, da minha propria pele! sinto-me enfrascado e é dificil desenroscar a tampa quando se está do lado de dentro... mas também não vejo ninguem que seja capaz de me puxar para fora. Continuarei então assim... será um sucessivo desabrochar de emoções até me sentir novamente eu, novamente completo, novamente consciente!
Será tarde, mas vai chegar! assim.. de um momento para qualquer dia.

resolvi não ficar por aqui esta noite... queria postar algo mas achei que deveria postar algo mais...

algo+

Algo.

Sábado, Abril 26, 2003

E é assim que funciona.. mais uma noite, mais um 4am, e de novo os esvoaçantes animais começam a cantar!
pensamento do momento:

Está na hora, da caminha vamos lá dormir. Vê lá fora, as estrelas dormem as sorrir!

E amanha cedinho, bem cedinho tu vais ver: Acordas mais forte e mais esperto, isso é crescer!

Boa noiteeeeeeee, vá lá vitinho..
Adeusssss e até amanhaaaaaa

Até amanha!

Sexta-feira, Abril 25, 2003


porque é que em lisboa os passaros começam a cantar as 4 da manha?! no meu bom alentejo só começam ao clarear do dia!!



Espinafrado... Gollum (aka Smeagol) é das personagens mais bem conseguidas de todo o filme... don't you just love him?!

Pois é, nem sempre conseguimos comer e lamber todo o prato, são-nos impostas limitações naturais e a boca não abre mais que aquilo!
Diga-se de passagem que também de nada serviria...

Goth japonês (jgoth).. uau uma verdadeira relíquia. Cada vez sinto-me mais degradado musicalmente. O leque de conhecimento abrangente aumenta exponêncialmente com o passar dos dias mas a sensibilidade esvai-se, a certa altura já não considero nada especial como, em tempos, considerei o anuncio do nescafé, ao nascer de um sol enublado com Jimmy Cliff a banhar-nos de uma nostalgia afável... parece que ainda sinto tudo.. a chuva a desfazer-se.. os obstaculos no caminho.. o dia ensolarado que se avizinha... *suspiro grotesco*

Enfim, já nada será como antes do ser... e sempre que um novo nada abunde na nossa existencia, será sempre uma memória do mais tarde!

Quinta-feira, Abril 24, 2003

Sente-se a claridade a inundar o vazio da noite,
O doce chilrear dos pássaros alegra a penumbra
Que me cobre o olhar, franzido e afectado pelo sono.
Pavoneio-me até à janela, rendo-me ao nascer do sol,
E sorrio...
Visto o pijama, deito-me e adormeço feliz...!

(Filipe 24/4/2003 6.45am)

Terça-feira, Fevereiro 18, 2003


Ânsia


Lagartos e varizes imundas
Despejadas pela ribombante
Resplandecente, angustiante leveza de sentir!
Espumantes narinas que não oxigenam
O suficiente para o cérebro decidir!

Sulcados os cordões

Segunda-feira, Janeiro 13, 2003

Em tempos, esteve aqui um manifesto, com que já não me identifico nem acho apropriado :)

_______________________________________________________________________________


É angustiava aqui sem a mais pequena finalidade nesta não tão acolhedora tarde de segunda feira e resolvi criar algo onde posso guardar além disco-rigido tantas vezes falível papel ou emails as pequenas ventosidades mal cheirosas que por vezes a minha alma liberta não obstante a minha cavalgante heterogeniedade gramatical e rebeldia ortográfica.

*recuperacao de folego*

Resumindo todos os devaneios, divagações, textos satíricos, atrocidades liricas e evacuações de diarreia mental predominantes em mim virão parar a este pequeno espaço, aqui podera ver-se de tudo.. teras que fazer como num filme de David Lynch e perscutar atentamente todas as entranhas para captares onde termina a realidade e começa o sonho.. o eloquente peido traumático.. :)

Tenho dito! begone mortal.. you are NOT welcome here...