O outro lado O irritante fzzzt de um néon na empobrecida rua da cidade
avermelha as paredes e cria uma angustia ao passar.
As pedras da calçada, humedecidas e exaustas de uma
poluição compulsiva todo o dia, repousam agora,
tossindo aqui e além.. ou afogando-se num pedaço
de terreno não tão bem nivelado.
"xploft" - enfio uma pata na poça e o som assusta
Dois gatos que roíam os restos de um qualquer caixote do lixo.
"PUM!"
Corro para os caixotes do lixo que os gatos comiam!
"Trás o relógio!! o relógio porra!!!"
Splat splat splat Splat splat splat Splat splat splat
Oiço-os a afastarem-se.
Sinto agulhas perfurarem-me todos os poros,
tento engolir mas tenho a boca completamente seca e
só então me apercebo de que o meu coração está quase fora do peito.
Estou sentado na cara de um mendigo!
Num salto de horror encosto-me à parede e olho para ele
que, para minha surpresa, era uma menina pequena que
não devia ter mais de 8 anos. Acordou,
talvez porque ao levantar-me descobri de novo a sua face
ao sabor do gélido vento que se sente esta noite.
Olhou-me...
Tremi...
Aquelas enormes safiras banhadas de preto
penetraram no mais profundo de mim confortando-me e inquietando-me.
Ergueu-se!
Encolhi-me!
Após ter ouvido o disparo, o medo ressentia-se em mim
mesmo através do mais dócil dos seres.
Senti que percebeu o meu medo porque se aproximou muito de vagar,
fui-me sentindo pouco à vontade, mas mais confiante.
Nunca tirou os olhos de mim, era como se ela fosse o adulto
e eu a criança assustada!
Tentei recompor-me, mas voltei a perder as forças quando me tocou.
Tinha as mãos sujas, cheias de calos e feridas de tanto rastejar
pelas ruas em busca de um pouco de dignidade, de um pouco de amor
sob a forma de pão para lhe acalmar a cavalgante fome.
Tinha as roupas numa miséria, rotas, a cheirar a lixo e
infestadas de pobreza. Toda ela era um farrapo,
mas nunca nenhuma mão me tinha tocado
com aquele calor, com aquele carinho, nunca nenhum toque
me transmitiu tanto como aquele amor que me enaltecia
os olhos, que de repente se lembraram do assalto e
olharam cobertos de terror para a poça de sangue que envolvia
o homem deitado a apenas alguns metros dali.
Ela também o viu. Largamos instintivamente numa corrida
até ao homem e, como se estivesse combinado, ambos parámos a
cerca de um metro dele.
Tinha um tiro no peito, estava como moribundo, imóvel,
aparentemente nenhum estímulo o poderia retirar dali.
Cheguei-me mais perto, mas a menina já estava encostada
à sua face procurando no sufoco um pouco de ar.
Deu-lhe dois estalos, apertou-lhe o peito três ou
quatro vezes, falava-lhe, gritava-lhe...
Estupidifiquei.
Ali estava aquele ser minúsculo,
sem qualquer experiência de vida a lutar pela
de um desconhecido, alvejado, praticamente morto
Se já não o estivesse!
Ela levantou-se, correu a gritar pela rua deserta,
seus pequenos pés descalços chapinhavam nas poças
à medida que avançava naquela azafama.
Começou a tocar às portas, pegou em pedras, partiu
carros, quebrou a montra de uma loja... num rompante
aquela sossegada rua tornou-se num alarido de arraial.
Assim que ouviu uma sirene a exausta criança caiu sobre si mesma,
ergueu-se e como um soldado a regressar duma guerra passou
por mim e pelo homem, olhando-o de lado.
Neste momento morri tanto, de parvo que estava, como o homem.
Ela dirigia-se para os caixotes do lixo e, sem parar de andar,
olhou-me e disse firmemente: "Anda!"
Uma faísca incendiou-me de cima a baixo e despertei daquele
estado sonambúlico. A sirene estava mesmo ao virar da rua,
corri até à miuda que, ao chegar, se voltou a deitar como
se nada se tivesse passado e eu fiquei entre os caixotes.
Vi tudo: a policia que chegou meio atónita e começou a tomar
Notas da ocorrência na montra antes de reparar no corpo
Que jazia, agora seguramente morto, no chão; a ambulância, que chegou
pouco depois com paramédicos que rapidamente observaram
o homem; ouvi ainda um ténue "pode ser que este se safe!" e
em menos de hora e meia a rua estava deserta novamente, os carros
partidos, a montra barricada, parte do sangue limpo, outra parte
dissolvido na chuva miudinha que entretanto insistiu em cair e eu
ganhei consciência de que nem me lembrava para onde ia antes de
tudo isto acontecer...
Olhei a menina nos olhos.. ela virou aquelas negríssimas azeitonas
em direcção a mim e de repente a sua cara ganhou luz.
Primeiro verde, depois vermelha, azul, amarela...
Passados breves instantes chegou também o som
"Trrratataa PUM PUM taratata PUM PUM PUM"
Nem eu nem ela desviámos o olhar para ver os foguetes. Parecia que
Tudo acontecia em câmara lenta fora de nós, a chuva caia lentamente,
os foguetes mal os ouvíamos, só lhe tínhamos a luz, a claridade.
Com a mesma suavidade com que um pato flutua na água serena de um lago,
a sua cara debotou num sorriso terno e sensível de onde saiu um
sereno "Feliz Ano Novo!". Senti-me invadido por uma paz imensa,
Como a levitar num sonho a dois. Seres tão diferentes e tão
unidos na cumplicidade de um olhar...
Abanei a cauda, lambi-lhe a poluída bochecha e deitei-me a seu lado.
Não a olhei.. mas senti que durante momentos ambos ficamos de olhos
abertos a sentir o calor um do outro, até que num suspiro feliz
adormeci.
- Filipe